Veja, pare e toque. É a passagem

CRUZ as 7 frasesTodos preparados para receber a grande festa cristã – a Páscoa. A maior comemoração do calendário litúrgico cristão, por celebrar a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

E os judeus, os anglicanos, os espíritas, os ortodoxos? E os muçulmanos?

Assumimos a Pascua (do latim vulgar) ou a Pascha (do latim eclesiástico) como uma propriedade exclusiva dos ritos católicos. É feriado, é domingo, juntamos a família e preparamos o apetite para o cabrito, o borrego, o vinho, os folares, as amêndoas e os ovos de chocolate – é a tradição católica.

Mas proponho uma alegoria ao sacrifício de Isaac por Abraão, posto à prova por Deus: «”Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar”. […] Chegados ao sítio que Deus indicara, Abraão construiu um altar, dispôs a lenha, atou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, por cima da lenha. Depois, estendendo a mão, agarrou no cutelo, para degolar o filho. Mas o mensageiro do Senhor gritou-lhe do céu: “Aqui estou. […] Não levantes a mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu único filho.” Erguendo Abraão os olhos, viu então um carneiro preso pelos chifres a um silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em substituição do seu filho» (Gn 22).

As habituais interpretações versam o amor e a submissão de Abraão a Deus, capaz de sacrificar o seu bem mais precioso, o filho. Não obstante, há uma lição a tirar desta história que vai muito além de Abraão. Deus é o real proprietário de tudo o que existe e há que ter consciência disso antes de usufruirmos das coisas e de as arrebatarmos. O agradecimento tem esta representação, de que tudo o que temos é divino. Estes são os princípios da Lei de Deus, Ele é o proprietário de tudo, por Direito, pois criou o universo.

Deste modo, Deus é quem estabelece as condições e os meios de usufruto daquilo que foi por Ele criado. Na alegoria a Abraão, Deus, na verdade, não queria que ele sacrificasse o seu filho, queria, sim, que renunciasse à propriedade de Isaac, partindo de «teu filho, a quem amas» ao clamor do anjo: «Não levantes a tua mão sobre o menino e não lhe faças mal algum».

A história do povo de Deus conduz-nos à mais nobre aquisição que houve na humanidade: o resgate de todos os Homens, com o sangue de Jesus derramado na cruz, pelo seu sacrifício único e perfeito, que substitui eternamente qualquer outro sacrifício. Libertou-nos e fez de nós propriedade Santa, em possessão eterna do Senhor. Esta é a história do sacrifício de Isaac, cujo filho de Abraão não lhe pertencia, mas era propriedade divina. De forma semelhante, por meio da semente de Abraão, somos também abençoados, todas as famílias da Terra são abençoadas, pois à imagem e semelhança de Deus, somos propriedades divinas – «Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo». (1 Cor 6, 20.)

Todas as famílias da Terra, cada ser, cada elemento – planta da semente de Abraão – são propriedade divina e não propriedade do Homem. Ora, a religião, qualquer que seja, é divina, é transcendental, não é minha nem sua, é de Deus, independente do nome que lhe seja atribuído – Páscoa, Pascua ou Pascha.

Tal como para os cristãos, também para os judeus, protestantes, espíritas, ortodoxos e até para os muçulmanos, a Páscoa tem uma simbologia – com outros contornos, claro –, pois são filhos do fruto de Deus, da semente de Abraão, mas acima de tudo hóspedes da Sua Terra. É que se o Homem fosse somente um produto casual da evolução numa determinada margem do universo, então a sua vida não faria sentido ou seria até um incómodo da natureza. A razão para a criação do Homem está no começo: é uma razão divina, fez saber o Papa Bento XVI na homília da vigília pascal em 2011.

A Pessach (a passagem) dos judeus é a comemoração da libertação do seu povo, por meio da travessia do mar Vermelho. O povo hebreu, descendente dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob, era escravizado no Egipto. A Tora – o primeiro e o mais sagrado dos três livros que compõem a Bíblia judaica – evidencia a intervenção divina para o libertar. Moisés foi o instrumento desta libertação. A Páscoa simboliza, então, a libertação do povo judeu sob o domínio do Egipto, a Passagem.

Para os protestantes, o Domingo de Páscoa representa a grande festa da vida, a esperança concreta e a Passagem para a salvação da humanidade perdida nos seus pecados, a vitória sobre o mal e sobre o pecado.

O espiritismo é a doutrina cristã que segue os fundamentos de Cristo, no entanto, não tem rituais nem dogmas. A Semana Santa é um momento de reflexão sobre a Passagem de Jesus na Terra, no contexto do amor, do perdão, da resignação e da realidade da vida eterna.

Para os ortodoxos, a Páscoa «é a festa das festas e o rei dos dias». O Cristianismo começa com a vivência deste dia especial, com a ressurreição de Jesus Cristo e a Passagem para a nova vida. Após a morte na cruz, reside o núcleo da fé cristã e nela está a própria ressurreição dos crentes.

Os muçulmanos não comemoram a Páscoa como os cristãos e os judeus, mas a Sexta-feira Santa é bem-vinda, pois possibilita a participação plena no dia habitual de oração semanal. Se para os cristãos o Natal e a Páscoa são as principais festas religiosas, para os muçulmanos as duas maiores festividades são o Eid-ul-Fitr (Festa de Quebrar) e o Eid-ul-Adha (Festa do Sacrifício). Arrisco, sim, afirmar que a Festa de Quebrar tem alguns contornos da Páscoa: é a quebra do jejum que marca o final do mês santo do Ramadão, semelhante ao fim da Quaresma cristã e a Passagem para uma nova vida. Para os muçulmanos, esta época festiva é sinónimo de reunião, de troca de presentes e de partilha de copiosas refeições. Do mesmo modo que a Páscoa para os judeus simboliza a libertação da escravatura e, para os cristãos, a ressurreição de Cristo, para os muçulmanos, fazendo um paralelismo, também a saída do profeta Maomé e dos seus seguidores para Medina representou a libertação e a Passagem para uma nova vida.

É seguro dizer, portanto, que a Páscoa não tem sido interpretada por meio de todos os seus contornos. É o direito de posse. É o subestimarmos os nossos vizinhos e os nossos irmãos. É acharmos que somos donos da religião, da cultura, do mundo, da Terra. O Homem não compreende o Homem, aniquila-se. Não exerce sequer os sentidos que lhes são inerentes, sendo crente ou não, os exercícios espirituais: Ver. Parar. Tocar. Esquecendo-se de onde vem e de onde está – na terra de Passagem (é mortal) – e de que é um hóspede de Deus e uma semente de Abraão, intervém mal, sacrifica os seus filhos, pois tira toda a coerência divina a este mundo. É o mesmo Homem que em nome da religião se esquece de si e do seu irmão e professa uma fé que não é em Deus, é a que assume como sua à luz de interpretações políticas, criando o caos. É o mesmo Homem que anda pela Terra com um esquadro a demarcar pontos de posição e ideologias que restringem lugares a limites fronteiriços, negligenciando o respeito pela religião, pelas disposições étnicas, culturais, familiares das populações; o que criou foi um lugar que agora não se chama Terra, chama-se Clivagem. A Páscoa é de todos o Homens que vivem na Terra de Deus, independente da sua religião, é o bilhete de Passagem rumo à capital da Nova Vida: Compaixão.

Sebastião Martins

(Leigo Católico)

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