BENÇÃO À VIRAGEM DE PARADIGMA

Magistério de Dom JM Imbamba, vice-Presidente da CEAST e Arcebispo de Saurimo.

Na “Grande Entrevista” da TPA, a 8/5/2018

A Igreja Católica, Apostólica Romana segue activamente a vida social, global em Angola. Ilustra-o, sobremaneira, a presente entrevista na qual perpassa inúmeros tópicos da escaldante actualidade. Profanos ou religiosos, foram elucidados pelo vice-Presidente da CEAST e Arcebispo de Saurimo, nas linhas que se seguem. E isto, a 8/5/2018,aguentando mais de 70 perguntas colocadas durante o novo programa da TPA, denominado “Grande Entrevista”. O entrevistador foi o próprio Director de Informação da TPA, Francisco Mendes, profissional renomado.

O momento actual do país

® Televisão Pública de Angola (TPA) – Como é que a Igreja Católica está a acompanhar o momento, que o país está actualmente a viver com um novo Presidente da República e com várias reformas em curso?

Dom Imbamba (DI): Como qualquer angolano, com muita expectativa, muita confiança na certeza de que o país está a dar um outro passo nesta viragem, diria, de paradigma na visão social, na visão política, na visão económica, cultural … tudo isto, pensamos nós, que está a contribuir para tomar consciência do que somos, do país que estamos e pretendemos construir e, sobretudo, tomarmos consciência das nossas debilidades, porque verificamos que, realmente, algo de errado estávamos a fazer, algo que não contribuía para o engrandecimento, para o desenvolvimento querido. Por isso, esta viragem, esta mudança, esta tomada de consciência das nossas limitações, mas também o descobrir das nossas capacidades, pensamos, vai galvanizar para que o país se reencontre consigo mesmo, mais uma vez, e possa dar as respostas que todos nós esperamos.

® TPA – Acha que não tínhamos noção antes do que nós eramos?

DI: Os frutos que estamos a colher revelam que nos estávamos a construir uma coisa que não era nossa.

® TPA – Como assim?

DI: No sentido de que nós fomentamos uma cultura que levou as pessoas a ter, digamos assim, uma precariedade de personalidade; no sentido de que nós absorvemos determinados conteúdos políticos, ideológicos e culturais, que não nos responsabilizavam, que não nos ajudavam a viver como filhos que amam a terra, como filhos que amam os seus compatriotas.

® TPA – Qual é a diferença que nota entre, para usar as suas palavras, o paradigma anterior e o paradigma novo?

DI: O paradigma anterior estava assente sobre uma base axiológica que não ajudava as pessoas a assumirem cabalmente as suas responsabilidades porque, com o destapar-se das tampas, estamos a notar o quê? Estamos a notar que afinal nós estávamos a construir algo que não era durável, algo que não ajudava a levar alegria às pessoas, que não ajudava a levar realizações às pessoas, algo que estava a incentivar o individualismo, o egoísmo, a injustiça, a impunidade, o descompromisso com a ética, com o outro. O novo paradigma está a querer corrigir aquilo que de mal estávamos a edificar e é um paradigma que se quer assentar sobre uma base de justiça, sobre uma base da dignificação, sobre uma base da responsabilização e do compromisso com a ética. E claro, isso vai requerer um esforço, vai requerer um caminho; requer uma paciência para podermos atingir aquela autoestima, atingir aquela verdade sobre nós mesmos.

® TPA – E como é que a Igreja quer participar neste paradigma? Está disponível para colaborar e como pensa colaborar?     

DI: A Igreja já colabora. A Igreja, como já temos vindo a frisar, está na sociedade, está para servir a pessoa que está na sociedade. E a Igreja é uma instituição que sabe dialogar com as realidades todas que surgem, boas ou más, a Igreja sabe apontar o caminho a percorrer e a nossa colaboração cinge-se no aspecto formativo, no dialogar com as autoridades instituídas, no fornecer os utensílios filosóficos, religiosos, sociais, culturais, necessários e indispensáveis para que tenhamos personalidades fortes, personalidades conscientes do seu verdadeiro valor, personalidades altruístas, personalidades que amem de verdade o outro e por ele trabalhem, se dediquem, para que o outro também viva feliz e na dignidade.

Combate à Corrupção

® TPA – A CEAST sempre fez publicar notas pastorais onde falavam da necessidade de combater a corrupção, a impunidade, as injustiças… Como é que a Igreja avalia as medidas contra a corrupção e a impunidade que estão a ser empreendidas pelo Governo de João Lourenço?

DI: Pensamos que a via é mesmo esta. Portanto, a via correcional é necessária, mas é preciso que juntemos a isto a formação da consciência. Nós sempre nos batemos nesta formação. É preciso trabalhar no homem interior; é preciso que o homem interior de facto se muna desses instrumentos axiológicos, indispensáveis para poder viver solto de todas essas amarras de apetência ao ter, apetência ao poder, apetência à fama, à vanglória, ao luxo. Portanto, a tudo aquilo que faz com que nós vivamos no egoísmo, vivamos no individualismo, vivamos nesta insensibilidade social que não ajuda a estarmos dentro dos problemas dos outros. Isto tudo requer da nossa parte, como Igreja também, uma presença sempre ativa, sempre interventiva para despertar, para denunciar, para orientar, para ajudar o próprio governo a tomar consciência das suas responsabilidades enquanto servidor público.

® TPA – Mas, fica alarmado quando ouve e lê notícias que falam dos níveis elevados da corrupção no país?

DI: Fico e ninguém pode ficar indiferente face a esta realidade porque, como sabe, a corrupção empobrece, a corrupção marginaliza, a corrupção não desenvolve, a corrupção cria precariedade na própria maneira de ser, na própria maneira de pensar e cria preguiçosos sociais, cria uma paralisia social e, claro, o resultado que advém destas más práticas são visíveis. Ninguém pode ficar indiferente, quando notar que dada realização devia ir num determinado rumo, mas não está a ir porque alguém a desviou do verdadeiro sentido.

® TPA- A Igreja apoia estas medidas que estão a ser implementadas pelo Presidente João Lourenço de combate à corrupção?

DI: Nós fizemos uma manifestação pública na nossa última assembleia em Moçâmedes. Fizemos uma nota especificamente sobre isto. Nós apoiamos esta reforma do Estado que está em curso, apoiamos esta vontade de fazer valer a justiça como tal, esta vontade de diminuir as assimetrias, esta vontade de fazer chegar o desenvolvimento a todos os recantos do nosso país.

® TPA – O Senhor fala com alguma tristeza no facto de termos atingido um alto nível de insensibilidade. Como é que nós chegamos a este ponto?

DI: Nós chegamos a este ponto exactamente porque partimos mal. Partimos mal ao ter colocado o acento tónico no dinheiro, o acento tónico no ter, o acento tónico no meu eu individual. E a Igreja sempre alerta isto, porque quando nós fazemos do dinheiro o nosso deus, claro, o dinheiro sempre provoca isto, provoca a corrupção, provoca a ganância, provoca a cobiça, provoca a roubalheira. Se nós colocamos o nosso acento tónico neste aspecto e não no nosso ser enquanto tal, isto é, essa nobreza, este sentido de honra, este sentido de dignidade, este sentido de pertença também, quando não colocamos o acento tónico sobre estes valores, então caímos nessa insensibilidade, o que vale é aquilo que eu tenho, que o outro viva com aquilo que ele bem achar.

® TPA – Mas acha que ainda vamos a tempo para construir uma sociedade diferente, com maior sensibilidade social?

DI: É possível e nós não podemos baixar a vigilância nem a esperança porque nós existimos também para isso. Como sabe, a história não é linear, a história tem sempre altos e baixos e as crises existem não para nos manter prostrados, existem exactamente para nós cairmos na conta da precariedade que nós estávamos a construir, nós estávamos a ser, para podermos lançar o novo fôlego, a nova forma de ser, a nova forma de encarar as próprias responsabilidades sociais e assim podermos trabalhar a contento de todos.

® TPA – Quando fala que estávamos a construir uma sociedade precária, eu queria que fosse mais explícito. O que é que estávamos a construir errado? Eu queria que citasse exemplos concretos de coisas que nos achávamos, estávamos a fazer bem, mas que afinal, como diz o Senhor, estava tudo errado?

DI: Também, não convém colocar isto de “tudo errado”. Nem tudo estava errado. É bom e, também como Conferência, já reconhecemos muita coisa boa, feita ou que estava a ser feita. Só que nós tínhamos uma base antropológica que não era digna. Nós estávamos a olhar o homem só na dimensão material, na dimensão do ter, na dimensão do fazer, e não estávamos a trabalhar o homem na dimensão do ser, portanto na formação da consciência que é muito importante; estou a falar muito no compromisso com a ética que é muito importante e este lado falhou, falhou drasticamente. O tipo de escola que nós estávamos a fazer: a escola primária, o que é que estávamos a formar? Estávamos a fornecer que nutrimento intelectual aos estudantes? Estávamos a instruir, aprender a ler e a usar as técnicas, mas a consciência estava a ser formada? Ora, sem consciência sadia, nós não podemos ter cidadãos sadios; sem consciência capaz de saber distinguir o mal do bem, o justo do injusto, a mentira da verdade, nós não estaremos a construir uma sociedade de valores; então é preciso, pois, que nós tenhamos consciência dessa realidade. A nossa sociedade não estava bem porque o resultado está aí: está todo o mundo, digamos assim, revoltado. Está todo mundo morto nas suas espectativas porque não era isto que nós esperávamos colher. E, exactamente, quando nós não trabalhamos bem na nossa escola, quando nós não trabalhamos bem na nossa saúde, quando nós não trabalhamos bem na nossa cultura, os frutos são estes que nós estamos a colher hoje.

® TPA – Sobre o repatriamento dos capitais. A Igreja apoia a aprovação de uma lei de repatriamento de capitais; qual é o vosso posicionamento em relação a esta matéria?

DI: Para a Igreja, o importante é que a justiça seja feita. Há um princípio sacrossanto: alguém que tira algo que lhe é indevido deve devolver ao legítimo dono. Portanto este é um princípio ético que nós não podemos discutir. Há formalidades, há maneira de fazer valer este princípio. A verdade é que o dinheiro público, do povo de Angola foi tirado indevidamente do país, é legítimo que este dinheiro regresse e satisfaça as necessidades de todos os angolanos. Este é um princípio que nem sequer deveríamos discutir. Mas, também, é preciso que isto seja feito numa base de justiça, numa base também de respeito pela dignidade do próprio povo e da soberania do povo angolano, também, e que esse dinheiro regresse não como se de um favor se tratasse. Agora as responsabilidades devem ser feitas dentro do espírito que nós pretendemos. Estamos num espírito de reconciliação, estamos num espírito de apaziguação. Então, é preciso que, neste espírito também, se trabalhe com sentido de justiça, com sentido de perdão, com sentido de reconciliação. Que possamos encontrar aquilo que pode satisfazer as necessidades e o bem de todo o país. Na Igreja, nós temos os métodos sagrados. Temos a confissão dos pecados, temos o aconselhamento e temos o perdão para a pessoa recomeçar, refazer-se, para a pessoa relançar o bem, digamos assim, mal cumprido. E todos ficamos alegres com o irmão que regressa reconciliado e com a paga que se faz pelo mal cometido.

Implementação das Autarquias

® TPA – Outra questão: as autarquias. Para já, existe um único consenso de que elas deverão ser realizadas em 2020. Existe no entanto alguma divergência, principalmente sobre o gradualismo, a forma como essas eleições vão ser realizadas, se em todos os municípios ou se, numa primeira fase, em alguns municípios. Qual é a posição da Igreja sobre esta matéria?

DI: Sobre esta matéria, o que nós achamos é que, é verdade nós queremos combater as assimetrias e as autarquias querem ser uma resposta a este desiderato, no sentido de o cidadão ter mais consciência das suas responsabilidades. Dialogar mais, a própria autoridade interagir mais com os cidadãos e todos participarem na busca de soluções para os problemas comunitários. Este é um bem que todos nós pretendemos. Só que o princípio do gradualismo quer salvaguardar a chamada prudência. Para nós, não cai bem. Não cai bem porque o movimento deveria ser inverso. Porque se nós privilegiarmos as comunidades que já têm tudo no campo humano, dos recursos humanos, dos recursos infraestruturais, dos recursos financeiros, etc. etc. Aqueles que não têm e nunca terão continuarão sempre em segundo plano. Então nós achamos que deveríamos começar por estas camadas que ainda não têm recursos, ajudá-los a ter o mesmo nível dos outros municípios e assim lançarmos as autarquias para todos.

® TPA – Se bem entendi: as autarquias deveriam começar nos municípios mais carenciadas?

DI: Exactamente. Não começar por aí; elevá-los, pois, elevá-los para atingirem um nível equiparado, para ser uma oportunidade para todos.

® TPA – Acha que até 2020 é possível este enquadramento dos municípios mais pobres?

DI: Poderia se fazer …

® TPA – Como?

DI: Porque quando nós pretendemos atingir determinado patamar, há sacrifícios que devem ser consentidos. Quando nós queremos objectivamente atingir determinado objectivo, há trabalho redobrado a fazer, mas agora é tarde; matematicamente falando não seria possível, mas um esforço deve ser feito para que esses municípios não fiquem sempre em segundo plano. Eu não estou a ver os municípios que nunca tiveram serviços, que nunca tiveram pessoal à altura – há comunidades literalmente abandonadas por esta Angola -, ficarem sempre abandonadas. Este é o nosso temor, este é o nosso receio, vamos ficar nas comunidades que estão muito avançadas e aquelas que estão menos avançadas ficarão sempre menos avançadas.

Penalização do aborto

® TPA – Na nota pastoral publicada a 14 de Março último em Moçâmedes, na passagem alusiva ao projecto de novo Código Civil, a CEAST reiterou a sua oposição à despenalização do aborto, afirmando que ”no fundo é uma lei que encobre a despenalização do aborto”. Não acha isto uma posição muito extrema da Igreja Católica Romana, Sr. Bispo?

DI: Bom, eu não diria que é extrema. Sobre a vida nós já falamos muito. Nós estamos a banalizar este valor vida. Praticamente, queremos colocar a vida sobre a mesa de negociações, como se se tratasse de um assunto qualquer. É o valor vida e lendo o anteprojeto, realmente, há um encobrimento que não estamos a perceber porquê, ao dar uma liberdade exagerada à mãe gestante de decidir se sim ou não ter o filho? Portanto acho que nós não podemos brincar com a vida.

® TPA – E uma mãe pode morrer se ela pode ser salva?

DI: Não é esta questão. Não podemos fazer a lei a partir já do aspecto negativo, temos que olhar para o aspeto positivo da vida e este aspecto que está a frisar é o aspecto das ditas excepções e as excepções são mesmo excepções e nós não podemos fazer as leis a partir das excepções. Portanto, o princípio geral é salvaguardar a vida; é isto que nós pretendemos, porque, veja, estou a vir de um encontro, em que estivemos 100 Bispos, em Israel, agora. Ouvi os testemunhos dos países altos, os países escandinavos e os Países-Baixos, que estão a dar. Realmente, nós não podemos, de ânimo-leve, cair nesse matar por matar; esses países hoje estão a precisar de pessoas, estes países hoje estão envelhecidos, esses países hoje estão a confrontar-se com o problema da solidão, do isolamento porque já não têm filhos. Será que é isto que nós pretendemos?

® TPA – Não acha que esta posição extremada em relação a esta matéria do aborto coloca a Igreja Católica Apostólica Romana Angolana à margem da Sociedade Angolana?

DI: Eu dizia que, se é de facto para defender o valor vida, então, podemos ir até às últimas consequências, porque …

® TPA – Até às últimas consequências? Significa o quê? O que é que a Igreja vai fazer para que esta lei não seja aprovada?

DI: Significa que nós vamos continuar a defender o valor da vida. Este é o nosso princípio sacrossanto. A Igreja nunca vai compactuar com leis que matam a vida porque a vida é um dom de Deus, um dom gratuito de Deus, mais nada. O resto são questões que nós vivemos em função daquilo que nós pretendemos, daquilo que pretendemos como país também. Será que a lei do aborto é tão urgente assim para o nosso país?

® TPA – Porquê acha que não é urgente?

DI: Não é urgente porque nós temos outros problemas urgentíssimos por tratar.

® TPA – Mas o problema é que se a lei do aborto foi discutida há 25 anos, a Igreja vai mudar de opinião?

DI: A Igreja não vai mudar de opinião porque a vida é sagrada. E nós queremos e a Igreja sempre se ofereceu para aqueles casos que o anteprojeto prevê, os casos excepcionais – são mesmo excepcionais –, a Igreja predispôs-se a acolher, predispôs-se a amparar, predispôs-se a incentivar a vida.

® TPA – Significa que a Igreja admite alguns casos do aborto?

DI: Não é admitir em alguns casos. Nós não vamos admitir nunca o aborto; nós estamos a admitir aqueles casos que …

® TPA – Mas mesmo quando uma mãe corre o risco?

DI: Mas, ali são casos raríssimos. Por isso é que nós adoptámos o sistema de ajudar o médico a procurar salvar as duas vidas, procurar salvar, mas não ir com vontade de matar.

® TPA – Mas naqueles casos que um médico não consegue salvar as duas vidas?

DI: É um caso da consciência do médico. Nós não podemos, digamos assim, incentivar uma cultura de morte. E nós já morremos muito! Já morremos ingloriamente, por doenças que nem deveriam matar, mas estão a matar-nos e nós vamos ainda compactuar com uma estrutura de morte? Portanto o que está mal é o princípio; não podemos partir do princípio de que devemos matar, por exemplo, quando soubermos que o filho que está ali no ventre a vir, ser um aleijado…pronto, a mãe vai desfazer-se dele. Portanto, acho que estamos a brincar com a vida.

Homossexualidade

® TPA – Bom, já sabemos que neste aspeto a Igreja é irredutível. Mas há outra questão, que é a homossexualidade. O Papa Francisco diz que se deve respeitar os homossexuais e diz que são irmãos que devem ser ajudados. A Igreja Católica Angolana tem consciência que já não podemos ignorar esta questão da homossexualidade? Como é que a Igreja encara tudo isso?

DI: O que acaba de dizer: são irmãos, são filhos de Deus, que nós devemos ajudar.

® TPA – Irmãos ou pecadores?

DI: Irmãos. Pecadores, porquê? O pecado é uma ação que alguém faz em consciência; a homossexualidade é um desvio.

® TPA – Um desvio, como assim, Sr. Bispo?

DI: Um desvio hormonal, um desvio biológico não é um acto voluntário, penso eu. Eu acho que há uma desarticulação dos cromossomas que faz com que as pessoas se abram para as pessoas do mesmo sexo. E é aí onde temos que encarar a questão. Portanto, nunca a Igreja diz que a homossexualidade é um pecado.

® TPA –São bem-vindos à Igreja os homossexuais?

DI: São filhos de Deus. São irmãos. Connosco, rezam, estão connosco. Agora, nós, é que temos que ajudar esses irmãos a estarem bem no seu lugar e ajudá-los socialmente para não viverem na discriminação.

® TPA – Se alguém tiver vocação pode ser ordenado padre? Admite isso?

DI: Não. Ali, a lei é clara. Portanto, um homossexual não pode ser Padre.

® TPA – Mas, quando o Sr Bispo diz que devemos proteger esses irmãos para não serem discriminados, se algum tem vocação e não é ordenado por causa da sua orientação sexual, é ou não ser descriminado?

DI: Sim. O problema está nos princípios que fazem que uma pessoa seja sacerdote ou não.

® TPA – Mas existem, há denúncias no seio da Igreja!

DI: Existem não porque foram voluntariamente assumidos. Existem porque talvez despertaram tarde nesta desorientação sexual.

® TPA – Desorientação sexual… não é retrógrado este discurso?

DI: Não é retrógrado, porque, verdadeiramente, são estas tais questões de ponta com as quais nós temos de saber lidar desapaixonadamente. A nossa antropologia tem uma tendência natural e na base dessa tendência nós devemos trabalhar nesta orientação das pessoas para o bem da própria natureza. Mas, nós encontramos esta realidade que é um facto, embora antes, talvez não fosse tão claro assim no nosso meio, mas agora são realidades que já se assumem com certa pompa. É preciso que nós não assumamos isso como algo de normal; isto é uma realidade anormal, excepcional exactamente.

Pedofilia e Abusos Sexuais

® TPA – Existem casos de pedofilia e abuso sexual no seio da Igreja Católica Angolana?

DI: Nós já denunciamos certos casos

® TPA – Mas, são casos que vieram a público. Ou existirão acobertados de pedofilia e de abuso sexual no seio da Igreja e que não são denunciados?

DI: Acobertados, isso não saberei dizer; mas, os casos que existem são aqueles que são públicos e até já estão em julgado e de modo que nós, como Igreja, nunca deveremos esconder estes casos que são desvios graves, ainda.

Celibato

® TPA – Mas isso remete-nos ao dogma do celibato. Esta questão não seria resolvida se a Igreja repensasse o dogma do celibato?

– DI: Ai está também outro erro. Se vir as estatísticas, vai ver que a maior parte de casos de pedofilia se realiza em famílias. Não é um problema de ser celibato.

® TPA – Mas a questão que coloco é como a Igreja Católica reage aos alegados boatos de alegados padres com filhos que chamam de afilhados?

DI: Bom, isto aqui nós temos falado várias vezes sobre estas questões. Portanto, são denúncias. Está a falar bem. São boatos … os factos devem ser apresentados como factos para que sejam julgados. A Igreja tem as suas normas, tem um código. E os padres que se declarem e manifestem isto também têm a sua maneira de serem tratados, de serem julgados e de serem ajudados a assumir as suas realidades.

® TPA – Mas o Sr nunca ouviu que existiriam Padres da Igreja Católica que têm filhos?

DI: Eu estou a dizer as denúncias devem ser feitas em fóruns próprios, não nos boatos. Portanto, a Igreja tem os seus canais. Tem até tribunais. Nós, em Angola, já erigimos muitos tribunais eclesiásticos e existem exactamente também para tratar estas questões.

® TPA – Nunca um tribunal eclesiástico julgou casos desta natureza, de padres com filhos?

DI: Já existiram. Já muitos casos foram tratados em muitas dioceses. Há padres suspensos, por causa disso

® TPA – Quando a Igreja consegue provar?

DI: Claro.

® TPA: Mas é aí onde se volta a questionar. Não acha que esta questão se resolveria se a Igreja repensasse o dogma do celibato?

DI: Isto, são, digamos assim, raciocínios que dependem muito das perspectivas teológicas, sociais que estamos a viver porque o ser sacerdote é um acto voluntário, não é um acto forçado. Por isso, o candidato quando vai ao seminário está consciente daquilo a que vai ao encontro. E as prevaricações, o padre é uma pessoa humana. Eu, Bispo, sou uma pessoa humana como qualquer, tenho as minhas limitações, tenho as minhas incapacidades, tenho as minhas quedas, mas é preciso ter em conta aquilo que nós todos proferimos e juramos realizar no serviço a que nos dedicamos. É só isso.

® TPA – Acha que o celibato não é problema?

DI: Não é um problema.

® TPA – Não afasta potenciais padres, especialmente jovens, da possibilidade de ser ordenados?

DI: Se assim fosse, os seminários estariam vazios. Nós, hoje, não temos espaço nos seminários.

® TPA – Também, há um grande número de desistências.

DI: É normal, isto é de história. O seminário é uma casa de formação, não é dito que quem lá vai é para entrar e sair padre, não, não; é para se formar

Cabinda.

® TPA – Outra questão, quando é que o Papa vai nomear um Bispo para Cabinda? O facto é que o tempo vacante para a nomeação de um Bispo é de seis meses, mas a Diocese de Cabinda está há quase dois anos sem Bispo. Qual é a razão? É normal que isso ocorra, portanto?

DI: É normal. Isto não só em relação a Cabinda. Saurimo esperou três anos.

® TPA – Mas, Cabinda é um caso muito complexo ou isto não preocupa a Igreja?

DI: Claro, preocupa. Está a preocupar como sempre preocupou. Como sabe, a questão da nomeação do bispo não é uma questão da Igreja, não é uma questão da CEAST. É do Vaticano que ordena. Claro, as tramitações todas já foram feitas e caberá ao Santo Padre, quando houver por bem, nomear o Bispo de Cabinda.

® TPA – Não acha que a ausência de um Bispo em Cabinda esteja a fragilizar a Igreja Católica?

DI: Não. Cabinda não está. Tem o seu Administrador Apostólico, o Dom Filomeno está sempre em Cabinda, está lá sempre a trabalhar. Portanto, embora a presença

estável de um Bispo pudesse dar outro fôlego…mas está a trabalhar e penso que para breve já teremos o Bispo.

® TPA- Para breve, quando, ainda este ano?

DI: Possivelmente.

® TPA – Mas o facto é que a própria Igreja Católica ficou assustada quando o Bispo da Igreja americana esteve a fazer trabalho pastoral. A CEAST fez sair uma nota a acusá-lo de ser um falso Bispo. Isto não é um indício de que a Igreja Católica sente que está muito fragilizada na província de Cabinda, ao tentar esfriar a iniciativa de um Bispo americano que não tem nada a ver com a Igreja Católica Apostólica Romana, um Bispo da Igreja das Américas?

DI: A questão de Cabinda é muito complexa. É muito complexa e é preciso também analisá-la dentro do próprio contexto. Portanto, Cabinda é um caso para a política angolana e para a própria Igreja angolana também. De modo que é bom que não se faça da Igreja um instrumento para os problemas políticos, porque os problemas políticos de Cabinda querem encontrar espaço na Igreja e isto não. O problema do Bispo que lá esteve não é nosso também. Nós recebemos a denúncia desde Cabo Verde. De Cabo Verde, veio a denúncia a alertar-nos sobre a presença deste Bispo, o Cupertino, um jovem. Estudou connosco, viveu cá em Luanda, estudou no Seminário de Luanda e conhecemo-lo muito bem. É nosso companheiro, nosso amigo. Agora, o alertar a comunidade de Cabinda para que não confundisse a presença dele como de um Bispo Católico se tratasse não é um crime. É o que se procurou fazer porque, infelizmente, ele usa toda a indumentária de um Bispo Católico e celebra a missa… A nossa dúvida é se foi ordenado ou não? Isto não nos consta que ele tivesse sido ordenado. Ora a ordenação de um Bispo requer também alguma tramitação.

® TPA – Mas, ele, também, deixou claro que ele não é da Igreja Católica Apostólica Romana.

DI: Porquê é que usa as estruturas, a liturgia, as indumentárias da Igreja Católica?

® TPA – Mas isto incomodou muito a Igreja?

DI: Incomoda porque sabe que há direitos de autor. Porquê falamos de direitos de autor? Portanto, quer fazer uma coisa sua, faça aquilo que não cria confusão com os fiéis dos outros.

® TPA – Mas muitos leigos católicos disseram que a Igreja, em vez de se preocupar com Cupertino, deveria preocupar-se em fazer o seu trabalho em Cabinda, que não está a fazer bem.

DI: É o que está a fazer. A Igreja está a fazer o seu trabalho e vai continuar a fazer o seu trabalho.

® TPA – Mas, acha que este Bispo Cupertino só teve sucesso em Cabinda por causa da ausência de um Bispo, por causa desta situação menos boa que a Igreja Católica em Cabinda vive?

DI: Não. O problema é que ele, não é a primeira vez que vem a Cabinda.

® TPA – Mas, porquê é que desta vez houve este alvoroço?

DI: O alvoroço veio por causa do alerta que a CEAST faz para os cristãos de Cabinda simplesmente. Porque ele está a trabalhar, trabalha até com padres da Igreja Católica que o acolheram, onde este padre está a prestar também o seu serviço. Por isso, não é nosso problema tratar desta questão, nós, de facto, devemos preocupar-nos com os nossos fiéis e com o nosso trabalho.

Bispos Europeus a dirigirem dioceses angolanas

® TPA – A Igreja não assume isto como um problema, mas o facto é que existem vários rumores que dão conta de que em algumas dioceses, há uma resistência de padres angolanos em relação a Bispos Europeus, Portugueses, Italianos. E cita-se um caso, o caso de Benguela. Diz-se inclusive que o Bispo anterior de Benguela renunciou por causa destas alegadas resistências, racismo mesmo se podemos assim afirmar. Estes são factos reais ou não?

DI: São especulações. São meras especulações. O Bispo de Benguela renunciou por limite de idade. Ele renunciou; já escreveu há mais de dois anos. Você sabe que o direito canónico é bem claro sobre isto. Atingidos os 75 anos, o Bispo é obrigado a renunciar. E ele já atingiu os 75 anos há dois anos, só que lhe foi pedido para aguentar mais estes dois anos.

® TPA – Mas o facto é que as pessoas dizem que ele, durante todo este tempo que esteve em Benguela, sofreu esta resistência de alguns padres. É verdade ou não?

DI: Isto já são questões de relacionamentos.

® TPA – Não tem nada a ver com rejeição?

DI: Não tem nada a ver com rejeição. É assim que ele trabalhou, governou a Diocese, ele lidou com os padres, com os fiéis. Agora, a aceitação ou não-aceitação, isto não é problema da Igreja propriamente dita, são problemas de sensibilidades. A Igreja é universal e é bem verdade e é bom que a Igreja Angolana se assuma como tal, também. Isto está mais que claro. E é por isso que nós estamos a trabalhar para que nos assumamos como Igreja Angolana dentro do contexto dos princípios da universalidade da própria Igreja.

® TPA – Mas acha que a Igreja Católica em Angola ainda precisa de ter Bispos de outras origens no nosso território?

DI: Se necessário for, não há nenhum problema sobre isto.

® TPA – Mas a questão é muito direta, Sr Bispo. Não é se necessário for. Ainda precisamos ou não?

DI: Pode ser que precisemos, porquê não? Pois, como digo, a Igreja é universal e é preciso que nós também trabalhemos. Se um dia, nós virmos que há necessidade de termos um Bispo que não seja angolano, que tenha um determinado carisma para isto ou para aquilo, podemos propor sem nenhum problema. Mas, por agora, enquanto temos, digamos assim, muitos candidatos, vamos continuar a promover os quadros angolanos.

Expansão do Sinal da Rádio Ecclesia

® TPA – Rádio Ecclesia, a rádio da Igreja Católica, já pode, se tiver condições, emitir em todo o território nacional. Como está este processo? Sei que já há contratação do pessoal em algumas dioceses. Sei por exemplo em Malanje, Benguela e mais algumas. Como é que está este processo de relançamento.

DI: Está a decorrer dentro da normalidade. É um processo que está em caminho. As rádios já estão, digamos assim, montadas, os aparelhos, muitos pelos anos de espera, estragaram-se e há toda uma corrida para renovar determinados equipamentos… Mas senão as dioceses todas estão a trabalhar para poderem ter estas estações operacionais.

® TPA – Quando é que começam a emitir?

DI: Neste momento, já se reuniram todos os papéis, para fazermos a entrega ao ministério a fim de dar as frequências.

® TPA – Este ano ainda, vamos ter possibilidade de ouvir o sinal de Rádio Ecclesia?

DI: O sinal da Rádio Ecclesia em algumas dioceses.

® TPA – Como é que vai ser? Eles terão emissão local ou a emissão vai ser transmitida a partir de Luanda e elas vão retransmitir a nível local?

DI: Não, não, não. Emissão local com entrada em cadeia para os grandes noticiários.

® TPA – Vamos ter neste caso 18 emissoras locais da Igreja Católica, nas 18 dioceses do país?

DI: Sim, Senhor.

Divórcio e Papel das Mulheres na Igreja

® TPA – Outra questão. Aumenta o número de divórcios, inclusive, as pessoas que casaram na Igreja. Para estas pessoas, a Igreja prevê ou não a nulidade do casamento?

DI: É preciso termos em conta que a nulidade não é sinónimo de divórcio. Portanto, os processos que levam à nulidade do matrimónio não têm nada a ver com os processos de divórcio. A nulidade do matrimónio dá-se naqueles casos em que, por exemplo, alguém casou por coação, alguém foi mentido, alguém que, não por vontade própria, assumiu um determinado relacionamento. É nestes casos.

® TPA – Outra questão, ainda, é o papel das mulheres na Igreja. Quando é que elas poderão ser ordenadas?

DI: Esse não é problema das mulheres na Igreja.

® TPA – Há aqui um paradoxo com a passagem da Nota Pastoral sobre o aborto que dizia todas as pessoas são iguais perante a lei, citando a Constituição. Então porquê é que, para um caso se vai à Constituição, falando do aborto, para outro, não tal como na ordenação? Aliás o Cânone 1024 diz: “só um varão baptizado pode receber a sagrada consagração”? É ou não uma discriminação da mulher? Se não, é o que isso?

DI: Não é uma discriminação da mulher. Essas são razões: não podemos ler o problema da ordenação com razões meramente civis ou meramente de códigos. São questões teológicas de fundo, que devemos ter presentes. E a questão teológica é aquela mesma que parte de Jesus- Cristo. Jesus-Cristo teve os seus discípulos e vários, entre mulheres e homens, mas conferiu o poder a esta coluna de homens que levaram o Evangelho até ao dia de hoje. Então, essa chamada sucessão apostólica, através da imposição das mãos, é este ministério. Nós temos vários ministérios dentro da Igreja, não só o ordenado, e as mulheres e os não ordenados têm outros serviços que não sejam estes da ordenação.

® TPA – Esta é uma questão teológica, quer dizer, a Igreja nem admite discussão?

DI: Não é, não admite. Já há vários debates sobre isso, já há fóruns, teólogos que reflectem, já se fala sobre isto e pode ser que surja, um dia, um Papa que vai poder abrir as portas sobre isto. Isto é uma questão de teologia.

® TPA – É uma questão que, apesar de discutir, a Igreja, não é que um dia venha admitir ordenar mulheres, não é?

DI: Por enquanto não. Por enquanto, o nosso fio teológico é mesmo este.

® TPA – A questão que tem a ver com a segurança social dos padres. Como é que esta questão está a ser tratada? Há casos de padres que, depois de uma certa idade, devem cessar o ministério e vivem em condições precárias. Não têm meios de subsistência e eles estão, na verdade, e passa o termo, fartos da Igreja que têm que os sustentar?

DI: É uma questão global e muito desafiadora, que nós temos na Igreja angolana. Porque em outras paragens, nos outros países, o padre é assumido como um funcionário público pelo serviço público que ele presta à comunidade e ele desconta ao longo dos anos para a Segurança Social.

® TPA – Em Portugal, é assim.

DI: É assim em todos os países ocidentais. No nosso caso, nós ainda não atingimos este patamar. É por isso que algumas negociações já foram avançadas neste sentido. Algumas soluções foram encontradas. Hoje por hoje, padres já recebem algum subsídio do Governo, que foi acordado previamente em função disto. E, também, estamos a encontrar outras formas, muitos sacerdotes são funcionários públicos e estão a descontar para a Segurança Social. Temos também, ao nível da Igreja, outro fundo chamado “Opus Securitate”, que funciona para este fim. Todavia, é um problema ainda em aberto, ainda não está totalmente resolvido.

® TPA – Ainda não totalmente resolvido?

DI: Ainda não totalmente resolvido.

Concordata

® TPA – Uma última questão. Existem muitas expectativas em relação à assinatura da Concordata entre o Governo Angolano e o Vaticano. Aliás, é uma questão que está a ser tratada há muitos anos no âmbito da normalização das relações entre a Igreja Católica Apostólica Roma e o Governo de Angola. Já existe uma data ou uma previsão para a assinatura deste acordo geral?

DI: Data, ainda não existe. Portanto, o Acordo-Quadro já foi trabalhado há bastantes anos. Só estamos à espera. Havia um ponto pequeno que estava ainda a provocar algumas divergências, mas já foi acertado.

® TPA – Qual é o ponto que estava provocar divergências, Sr. Bispo?

DI: Convém não entrarmos em pormenores ainda. Mas, já está saneada a questão. Agora, é questão dos nossos diplomatas se entenderem e fixar as datas, os diplomatas do Estado Angolano e da Santa Sé.

® TPA – Não acredita que este ano esta Concordata venha a ser assinada?

DI: É provável.

® TPA – Este ano. Vai ser em Luanda ou na Santa Sé?

DI: Não posso avançar nada sobre isto.

® TPA – Como está a questão, que é um compromisso também assumido pelo Estado Angolano e a Igreja, de construção de uma Basílica no Santuário da Nossa Senhora de Muxima? Este processo está a andar ou não?

DI: É um processo que estava parado. Mas ouvimos o chefe de Estado a declarar que era da sua vontade dar sequência a este processo. Estamos nesta expectativa.

® TPA – Já foram contactados, para retomar este processo?

DI: Já e pronto. Os trabalhos estavam muito avançados, as razões financeiras fizeram com que o projecto paralisasse, mas uma vez encontrado o dinheiro, penso que as obras arrancarão.

® TPA – Dom Manuel Imbamba, nós agradecemos por ter vindo à TPA, para esta “Grande Entrevista”.

DI: Eu agradeço também e dar-vos parabéns por este serviço, que prestais à nossa comunidade, e que continuemos pois a oferecer motivos à nossa sociedade motivos de alegria, esperança e realizações.

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