BRIO, DORAVANTE, com Mbanza Congo no Património Cultural da Humanidade – Dom Kiaziku.

Em entrevista a ’o apostolado’, o Bispo de Mbanza Congo disserta sobre o acesso do coração da urbe lendária no Património Cultural da Humanidade. A decisão saiu no dia 8/7 corrente, na 41ª sessão do Comité do Património Mundial, instância da UNESCO, reunida em Cracóvia, Polónia. Na íntegra, seguem as respostas de Dom Vicente Carlos Kiaziku, esmiuçando frontalmente o questionário exaustivo que lhe foi submetido.

  • APOSTOLADO (APO) – Senhor Bispo, o seu breve comentário sobre a recente aprovação do centro histórico de Mbanza Congo a património mundial?
  • Dom Vicente Carlos Kiaziku (D VCK) – Foi um grande acontecimento para Mbanza Congo e estão de parabéns os Bakongos em particular, os países que pertenceram ao Antigo Reino do Congo, para Angola e para toda a África Negra pelo reconhecimento feito a esta cultura centenária. É um acontecimento transcendental e acredito que ainda não nos demos conta da importância que ele tem para nós como munícipes de Mbanza Congo, como Bakongos e mesmo como angolanos. Vai levar tempo entendermos profundamente este evento e agirmos de consequência.
  • APO – Como acolheu a notícia pessoalmente e na generalidade da diocese, a começar pela própria sede?
  • D VCK Acolhi esta notícia com muito júbilo, tanto que espontaneamente agradeci antes de mais ao Senhor Deus como o salmista que diz: “este é dia que o Senhor fez, exultemos e cantemos de alegria”. Esta elevação da cidade de Mbanza Congo a Património da Humanidade é uma grande dádiva do “Nzambi ya Mpungu”, Deus todo-poderoso a todos nós. E naturalmente o agradecimento estende-se a todos os homens e mulheres, angolanos e estrangeiros, que acreditaram neste processo e se prodigaram para que hoje fosse uma realidade. E este sentimento de alegria manifestou-se por toda a Diocese. Nos rostos dos munícipes, era patente a alegria por este reconhecimento. Recebemos mensagens de felicitações de muita gente e de diferentes partes da Província do Zaire e não só. Todos agradeciam a Deus por este reconhecimento.
  • APO: Que tal o alcance histórico do passo?
  • D VCK Não há dúvidas que este é um facto histórico, porque constitui um reconhecimento mundial daquele que foi um dos mais conceituados reinos de África, com toda a sua cultura do passado e, também, dos valores que foram sobrevivendo às vicissitudes históricas e culturais e que, hoje, continuam ainda a ser significativos para os Bakongos e são propostos a toda a humanidade, a nível de conhecimento e mesmo de assimilação, porque os verdadeiros valores também acabam por ser universais e passíveis de serem vividos por outros povos. E isto é, sem sombras de dúvidas, um facto histórico em todos os sentidos.
  • APO: Pode detalhar o papel jogado pela Igreja Católica no processo em termos mais concretos do que os genéricos, frisados na fundamentação da decisão?
  • DVCK A Igreja Católica deu o seu apoio moral a todo este processo e tinha um seu representante na Comissão alargada que preparou a apresentação da Cidade de Mbanza Congo a Património Cultural da humanidade. E é bom sublinhar o facto de que por muitos anos, em relação ao Kulumbimbi, Antiga Sé Catedral, em termos de limpeza do local e mesmo da preservação do edifício era só a Igreja Católica que se interessava. Outras instituições só nos últimos anos começaram a interessar-se por ela. E a nível da preservação da língua kikongo, as Igrejas sempre jogaram um papel importante com o uso dela nas liturgias e na tradução da Bíblia, catecismos, missais e outros livros didáticos.
  • APO: Está projetada uma celebração eucarística de saudação ao feito e quais serão as ideias-mestras da vossa homilia de circunstância?
  • DVCK – Está sim, embora não possa adiantar ainda a data precisa. As linhas-mestras da homilia estarão na linha da gratidão a Deus pelo dom da fé cristã, vamos recordar como os pioneiros cristãos africanos viveram no passado este dom (altos e baixos), as dificuldades que o Evangelho encontrou para ser assimilado pelo povo (sincretismo), a necessidade da inculturação do Evangelho e como o recordar o passado nos deve levar a viver com coerência o nosso cristianismo hoje. O legado passado como desafio para o presente. Não basta ter um passado glorioso, é preciso que também nós façamos a nossa parte com brio.
  • APO: Que lições tirar do novo dado no plano eclesial?
  • D VCK A nível eclesial, continuaremos a cultivar a nossa cultura local, mas purificada pelo Evangelho porque é importante que o Espírito Santo, confirme os valores culturais e elimine os desvalores num acto de profunda purificação da cultura. E num acto de evangelização transversal, toda a pessoa, todo o povo com a sua cultura é salvaguardado no espaço e no tempo. Assim como no passado, a Igreja contribuiu significativamente para o desenvolvimento do Antigo Reino do Congo, hoje continuará a dar o melhor para a formação do homem novo à imagem de Cristo que acaba por ser a maior e a melhor qualificação do homem criado à imagem e semelhança de Deus. A moralização da sociedade só será profunda com a vivência do Evangelho.
  • APO: E no plano da cooperação com as igrejas da jurisdição transfronteiriça tocada de perto pelo passo? Exemplo: o envolvimento na atividade da Universidade de Matadi, fruto de tal cooperação no passado, sem saber se continua até hoje em dia. Citei Matadi em virtude de algum contributo de seus peritos nas iniciais pesquisas arqueológicas feitas em Mbanza Congo, além do acervo linguístico e editorial da Bíblia no idioma autóctone.
  • D VCK Infelizmente, pelo menos de momento, não temos nenhuma colaboração significativa com as Igrejas Irmãs fronteiriças. Seria bom que avançássemos com a colaboração em alguns sectores, como o Sr. Jornalista Siona Casimiro exemplifica, na área linguística e litúrgica; mas não só com Matadi mas, também, com a diocese de Kisantu sobretudo nas traduções da Bíblia e dos catecismos. É uma única língua, o kikongo com as suas variantes e é o mesmo grupo étnico dividido pela colonização. Neste momento só estamos a nível de boas intenções. Com a Universidade de Matadi, não temos nenhum tipo de colaboração. Oxalá que a médio prazo consigamos implementar alguma colaboração. É mesmo desejável que isto aconteça.
  • APO: As vossas expetativas junto das autoridades, doravante?
  • D VCK As expectativas junto das autoridades são muitas. Esperamos das autoridades centrais e locais um grande compromisso para continuar com o trabalho iniciado sob o lema: Mbanza Congo uma cidade a desenterrar para preservar. E naturalmente a criação de novas infra-estruturas modernas que apontem para o desenvolvimento de Mbanza Congo. Todos nós conhecemos a situação da nossa cidade histórica e sabemos que temos que trabalhar muito para que seja também uma cidade moderna em todos os sentidos, com água e luz de qualidade, hotéis, boas estradas, enfim com todos serviços que uma cidade moderna tem e ainda mais por ser património da humanidade, vislumbrando-se a médio prazo a vinda de investigadores, históricos, turistas, etc. etc., é assim que teremos necessidade de estruturas para acolher condignamente toda esta gente. Esperamos de todos um redobrado compromisso para que a cidade tenha um desenvolvimento sustentável. A responsabilidade é de todos nós cada um a partir da sua situação, mas ninguém deve escapar-se desta responsabilidade. Parafraseando o Papa S. João Paulo II que se dirigia aos membros da Vida consagrada no Encíclica Vita Consecrata, eu diria: Mbanza Congo e não só, Vós não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir! Olhai o futuro, para o qual vos projecta o Espírito a fim de realizar convosco ainda grandes coisas. Aqui está o nosso grande desafio…
  • APO: E a expetativa junto das populações autóctones a precaver dos complexos de xenofobia e chauvinismo?
  • D VCK Das populações autóctones, esperamos que colaborem com o Estado em todos os sentidos, na preservação dos lugares históricos já identificados, dos marcos arqueológicos ,etc., e que tenham também uma mentalidade aberta, fidelidade na criatividade. Sabemos que Mbanza Congo é classificada como terra da tradição. Esta definição pode ser considerada positiva se a tradição estiver aberta ao universal, embora afirme a sua própria identidade, e pode ser negativa se for uma tradição fechada. Aliás toda a cultura é dinâmica e se permanecer fechada acaba mesmo por se tornar caduca e acaba por morrer. Deve-se superar o complexo de “povo eleito”. É coisa salutar ser orgulhoso da própria cultura, da própria identidade, mas também devemos estar abertos à diversidade; aliás, ainda, um povo sem a própria identidade é um povo sem carácter, sem princípios, sem capacidade de discernimento e acaba por viver simplesmente imitando os outros, torna-se uma cana agitada pelo vento ou, como diz o Apocalipse, é repelido, vomitado por não ser quente nem frio. E é também importante que se continue a transmitir às novas gerações a cultura autóctone nos seus valores naturalmente, porque às vezes em nome da tradição cometem-se aberrações. E o cultivo da língua vernacular kikongo, também é importante, porque afinal a língua acaba por ser a expressão e a preservação de uma cultura. E hoje sobretudo pelos jovens, e por razões comerciais e de imposição na RDC, o lingala tem tendência em afirmar-se mais em relação ao kikongo.
  • APO: E a expetativa junto da ampla diáspora (até extracontinental), sensível à ocorrência verificada?
  • D VCK A Diáspora continua a ter um papel importante na divulgação das realidades do Antigo Reino do Congo no exterior; aliás diga-se de passagem que o Reino do Congo continua a ser considerado um mito e sobrevive no imaginário de muitos povos da América do Sul e nos grupos negros da América do Norte, para onde foram levados muitos escravos. E porquanto parece incrível, às vezes há mais interesse nos povos que constituem a diáspora em conhecer e mesmo reviver as antigas culturas do que em nós que cá vivemos. Às vezes até fazemos a má figura ao gaguejarmos na narração da nossa história e eles sabem-na de cor e salteada. É um erro a corrigir e a escola tem que primar em dar à nossa juventude antes de mais o conhecimento da nossa própria história evitando assim a alienação cultural. E acredito que muitos da diáspora hão de vir beber da fonte das suas culturas, o que vai constituir um desafio para todos nós porque não os podemos desiludir ao recebê-los pelo menos em termos de conhecimento e de significação da vida. Dito isto, devemos também reconhecer que alguns valores de outrora, têm mais valência na diáspora enquanto por cá tornaram-se caducos. E temos que reconhecer que mesmo para o reconhecimento de Mbanza Congo a Património da Humanidade, o apoio da diáspora foi muito significativo.
  •                                                                                                                                                                                                                                                    
  • APO: O que achar por bem completar. Vimos o “Lumbu”, altamente representante na comitiva que foi à Cracóvia, não qualquer confissão de implantação secular em Mbanza Congo. Alguma explicação?
  • D VCK Não sei que critérios foram seguidos pelo Governo na escolha da Delegação que se deslocou a Cracóvia, mas certamente um representante das Igrejas centenárias, ainda que fosse simplesmente como observador, não ficaria mal na fotografia, tanto mais que não se pode escrever a história do Reino do Congo sem falar do papel preponderante que a Igreja Católica e não só teve nele. Mas a presença do “Lumbu” foi útil porque podem agora transmitir ao povo o verdadeiro significado da elevação de Mbanza Congo a Património da Humanidade.

Mbanza Congo, aos 19.07.2017

+ Vicente Carlos Kiaziku

Bispo da Diocese de Mbanza Congo

Texto: Siona Casimiro 

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