Camarões. Bispos: sobre separação de regiões anglófonas convite ao diálogo

Pelo menos 7 pessoas morreram em vários confrontos entre manifestantes separatistas e forças de segurança nas regiões anglófonas dos Camarões, onde no domingo passado (01/10) foi declarada simbolicamente a independência da chamada Ambazonia. Os confrontos – informa a agência Fides – tiveram lugar tanto no sudoeste como no noroeste do País, onde o governo decretou o recolher obrigatório e enviou quase mil agentes de segurança.

Os separatistas escolheram a data de 1 de outubro em memória da independência da área anglófona do Reino Unido, em 1961. A parte francófona se tinha tornado independente da França em 1960. Um referendo tinha em seguida estabelecido a criação de um único estado bilíngue.

Na véspera das manifestações, a Comissão Episcopal “Justiça e Paz” publicou um Comunicado em que se exprime a indignação da Igreja “pela persistência da crise anglófona, a amplitude do movimento de 22 de Setembro de 2017 (dia em que iniciaram os protestos organizados para pedir a separação, NDR.) e o projecto da proclamação da independência das regiões do noroeste e sudoeste”.

“Justiça e Paz” renova o apelo da Igreja “a todos os protagonistas da crise, para que se busque a paz através do diálogo à luz da verdade”. O Comunicado critica o governo por não ter sabido gerir a crise e convida-o “a reconhecer as limitações e erros na aplicação do processo de construção nacional” e a iniciar a descentralização administrativa.

Os protestos dos separatistas resultam do pedido dos habitantes das regiões anglófonas de usar o inglês no ensino e nas actividades administrativas, e de adoptar o sistema da Common Wealth de origem britânica em vez do direito fundado no código de inspiração francesa.

Sublinhando que não é tarefa da Igreja definir a forma do Estado, “Justiça e Paz” pede que seja aplicada a descentralização, introduzida na Constituição, para responder aos pedidos das regiões anglófonas.

Sobre a questão, Olivier Bonnel entrevistou o Presidente da Conferência Episcopal dos Camarões, D. Samuel Kléda, Arcebispo de Douala, capital económica do País:

“Gostaria de recordar que, em abril passado, a Conferência Episcopal dirigiu uma carta a todos os camaroneses. Nesta carta, exprimimos claramente a nossa oposição: a Igreja dos Camarões é antes de tudo pelo diálogo, para que as partes voltem a dialogar. A violência não resolve nenhum problema. Nós também nos dirigimos às instituições porque tem aquela que chamamos de “descentralização do poder”: dar uma maior autonomia às regiões está na nossa Constituição e isto nunca foi aplicado. Pedimos que a descentralização seja aplicada na sua totalidade. Desde então, continuamos a pedir aos nossos fiéis que rezem para evitar que o País entre numa situação de conflito. Até hoje temos vivido em paz e rezamos por isto. Mas queremos que os problemas de ordem social sejam resolvidos, que a justiça seja aplicada para todos”.

Para si, porque é que esta descentralização nunca foi aplicada nos Camarões?

“A pergunta pode ser dirigida aos políticos: é o texto da lei! O governo tem tentado fazer algo noutros aspectos, mas esta descentralização nunca foi aplicada de maneira completa para que as regiões tenham um pouco mais de autonomia”.

As regiões anglófonas dos Camarões se têm considerado muitas vezes como “segundas zonas”. Hoje, o senhor compreende esta reivindicação?

“Havia, inicialmente, dois âmbitos: o âmbito da educação, ou seja, que o seu ensino, tudo aquilo que fizeram no sistema anglófono, seja respeitado, e isto é absolutamente legítimo; em relação à justiça, a mesma coisa. Agora, é um pouco mais difícil: se eles querem separar-se, proclamar um seu Estado, isto é mais difícil … Acho que quase todos os camaroneses não são favoráveis a esta separação”.

Devemos temer outras tensões no futuro?

“Se, na verdade, eles se consideram como um Estado, como se dizia, e querem proclamar a sua independência, então Camarões já não é um País unido. Creio que este é o temor de todos os camaroneses. Se isto acontecesse, o que sucederia depois no futuro?”

Para si, as reivindicações das províncias anglófonas não correspondem àquilo que o povo camaronês quer?

“Não, apenas em alguns pontos … Sobre a separação, creio que muitos camaroneses não estão de acordo. Hoje queremos, antes, o desenvolvimento do nosso País, que todos nos unamos para desenvolver o nosso País e caminhar juntos. Isto é o que fazemos a nível da Conferência Episcopal. A tensão é permanente. Se tivéssemos ainda que enfrentar outros conflitos, isso correria o risco de desestabilizar o nosso País”.

(BS)

 

 

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