Sebastião Martins: Cidadania, Fé e Esperança

jovensNos dias que correm, a humanidade – pasmada com as suas próprias descobertas e com o poder que vai adquirindo – vive angustiada com as questões relativas à evolução do mundo, ao lugar e à missão do Homem no universo, ao significado do seu esforço individual e colectivo, enfim, ao último destino das criaturas e do seu próprio fim, diz a Constituição Pastoral Gaudium et Spes: Sobre a Igreja no Mundo Actual, promulgada pelo Papa Paulo VI, no século que se passou.

Naquela altura – falo, portanto, em 1965 –, a Constituição Pastoral, na introdução, põe em evidência uma verdade de La Palice, tão evidente que nos deixa de boca aberta, tal é a antítese: nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria.

Nunca o Homem teve tamanho acesso à educação; e, no entanto, há ainda um sem-número de barreiras que o condicionam.

Nunca o Homem teve um sentido de liberdade tão vivo como hoje; e, no entanto, vive cada vez mais preso às convenções e às novas formas de servidão social e psicológica.

Nunca o mundo experimentou tão intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária – entenda-se a globalização e a ideia de um certo corporativismo; e, no entanto, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas que mais parece que vivemos num sítio chamado Ruptura, onde persistem ainda conflitos políticos, sociais, económicos, raciais e ideológicos. Nem o perigo de uma guerra que tudo subverta está eliminado, diz a Constituição Pastoral; e é na guerra da subversão que vivemos agora.

Nunca o intercâmbio das ideias floresceu tanto, uma vez que o Homem está no centro do universo – chamemos-lhe Iluminismo ou Humanismo; e, no entanto, as próprias palavras com que se exprimem conceitos de maior importância assumem sentidos muito diferentes, segundo as diversas ideologias.

Posto isto, a ideia com que ficamos diante de um texto com metade de um século é a de que o desenvolvimento tecnológico, a evolução da técnica, não é sinónimo de desenvolvimento humano. Não quero com isto aludir a ideias camonianas de um Velho do Restelo, pelo contrário. Quero com isto dizer, que o Homem ao desenvolver – e bem – a tecnologia, atribui as suas competências, enquanto ser pensante, à máquina, ao sistema, à arma e à matéria por ele criada, esquecendo-se dos valores cívicos – e isto é que é errado.

Das profundas e efémeras transformações criadas pela inteligência e actividade do Homem para o desenvolvimento do mundo, notam-se efeitos secundários nele próprio, tais efeitos que contaminam os seus juízos, desejos individuais e colectivos, modo de pensar e de agir, tanto em relação às coisas como às pessoas que «podemos já falar numa verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida religiosa».

Acontece que o Homem tendo o poder «nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço. Ao procurar […] o interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu próprio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto à direcção que esta deve imprimir». E é aqui que a Igreja tem um papel decisivo.

Angola – assolada pela febre-amarela que se pode transformar numa ameaça para o mundo todo – é um exemplo de um acontecimento micro que se pode expandir à escala global. A crise económica, financeira e social não é só nossa, é universal, do mesmo modo que aquela epidemia, que está a assombrar o território angolano e que corre o risco de «emigrar» para outros países do globo. A questão dos refugiados não é só um problema dos países que vêem sair a sua população, é um problema do mundo.

Não podemos desfazer-nos dos males que nos assolam ou simplesmente deixá-los à mercê de um «sistema» que não é eficiente. A crise económica e social que Angola atravessa exige a afirmação dos valores defendidos pelo cristianismo. E ser bom cristão não passa somente por estarmos fechados na igreja, mas irmos ao encontro das necessidades dos outros, abrirmos as portas da mente para a intervenção cívica: «Se há circunstâncias na nossa história recente em que é importante sublinhar a imprescindibilidade de valores tão significativos como a solidariedade, a justiça, a equidade e a coesão, para já não falar da ética, o momento é este […] se há um momento em que o cristão deve intervir, apelando à edificação destes valores, é agora», disse o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Luís Marques Mendes), não de Angola, mas de Portugal, que tão bem conhece os dissabores de uma crise, ainda que diferente da nossa.

Parafraseando os versos do Senhor Padre José Fernandes de Oliveira – o nosso conhecido Padre Zezinho – ser cristão é derramar amor sem medo, num mundo que não sabe amar, intervir no debate político e cívico com os valores do cristianismo, porque é tempo de esperança, de comunicar, partilhar a palavra de Deus e mostrar ao mundo o que é o amor e que os males de um são os males de todos, plantando a semente da fé para que a matéria não se transforme de uma vez por todas num deus e num fim.

 

Sou apenas mais um cidadão que acredita no amor;

E quem crê por favor não disfarce a esperança que tem;

Quem não crê tem a minha amizade e respeito também.

Eu, porém, acredito em Jesus a quem chamo Senhor.

 

É tempo de ser esperança

É tempo de comunicar

É tempo de ser testemunha de Deus

Neste mundo que não sabe amar.

 

Neste mundo que faz da matéria seu Deus e seu fim,

Quem tem fé, por favor, não se omita fingindo não ter;

Quem não tem, por favor, nunca deixe a matéria vencer.

Eu, porém, acredito que o Reino de Deus vive em mim.

 

Quando eu vejo que existe no mundo esta falta de paz

Os cristãos com vergonha de ser como Cristo pediu,

Tanta gente buscando a verdade em caminhos sem Deus,

Vou gritando com todas as forças de que sou capaz.

 

(É tempo de ser esperança, Padre Zézinho)

 

Sebastião Martins

(Leigo Católico)

 

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