Conflito Tribal, Sim e Não

                                Visão Jornalística

África comemora mais um Dia seu com inovado fratricídio e crise humanitária. Sede das novas chagas: a fronteira do Centro-Sul da RDC e o Nordeste de Angola! Para cá afluem os refugiados da contenda de lá. Fisionomia do território afectado: subsolo repleto de diamantes e camponeses pobres da mega etnia luba, a cavalo entre os dois países. A mídia mundial colou ao conflito o chavão de tribal. Os factos aconselham a responder pelo sim e pelo não.

Sim, na medida em que a luta opõe o populoso clã Bajila Kasanga, da densa tribo Lulua, ela própria um ramo da ampla etnia Luba. Um clã revoltado contra o assassinato do seu chefe preferido, de nome natural Jean Pierre Mbandi, de 51 anos de idade. Na chefia do clã, o eleito adquire o título honorário de Kamwina Nsapu, que passou a designar os adeptos, ora armados de rudimentares meios letais.

Não, por ausência, neste momento, de animosidade entre as tribos, como no drama entre Tutsis e Hútus no Ruanda, outrora. Não, ainda, porquanto o estereotipo tribal simplifica a teia, tapando a responsabilidade das autoridades no caso. E, longe de nós, olvidar o lado ubuesco pelo qual é pintado a personalidade de Mbandi, isto é: burlador; escura formação em medicina na China e Índia; mais charlatão messiânico, adepto da prática de feitiçaria e misticismo do que condigno curandeiro… Não obstante, a sua horrível morte aos 12/8/2016 avivou e continua a avivar a ebulição deste conjunto de ingredientes: a opacidade sobre a vontade do governo em acatar o prazo constitucional das eleições presidenciais e consequente alternância pacífica do poder; líder rebelde sucumbido, sem paradeiro, em meio a informações de corpo decapitado, órgãos genitais amputados e exibidos como espólios de guerra, ferindo o pudor cultural local; a fama do malogrado, quando em vida, de ter rechaçado o aliciamento do governador da província, Alex Kande, para aderir ao seu partido da maioria governante; o protelamento, em retaliação pelo referido governador, da oficialização do ritual de sucessão de Mpandi à dignidade de Kamwina Nsapu, deixada pelo seu tio; a espiral sucedânea da violência cega, com acções terroristas contra os símbolos do poder público, massacres, vítimas enterradas em valas comuns, dois inquiridores internacionais degolados e fuga desordenada das populações indefesas para sítios seguros. E, em acumulação, estes elementos estruturantes: o vazio da morte do carismático Etienne Tshisekedi, popular na região; batota de agentes do Estado, vazada em frescas revelações do ‘New York Times’ sobre actuações de Kamwina Nsapu. Logo, uma gama de factores irredutíveis na exclusiva raiz tribal. Tamanha influência teve, antes, uma imatura gestão da idiossincrasia de um grupo do mosaico autóctone. E assim, se vai tornando a instrumentalização política da corrupção em norma da ilegitimidade autocrática. Com a agravante gestação contagiosa em Kinshasa e no Oeste, onde se destaca o chefe Kikongo Ne Mwanda Nsemi. Também, esta figura agita os seus fanáticos, arremessando a arma da xenofobia. No fundo, só para reclamar a sua justa retribuição por ter contribuído na manobra que consistiu em esticar o mandato expirado do presidente Joseph Kabila.

A este ritmo, a própria agenda de 2065 da União Africana, a balançar actualmente, terá dificuldades em alcançar as metas de desenvolvimento preconizadas. Pois, o grosso das energias e os parcos meios serão consumidos pela busca da estabilidade e segurança das autocracias. Não será altura, de a diplomacia preventiva alavancar mais claramente na vizinhança e região, o progresso do que os anacronismos? Ou manter esta subtil ferramenta como apanágio das abominadas potências ocidentais? “África, levanta-te, toma a tua enxerga e anda”, clamou a IIª Assembleia do Sínodo dos Bispos de África, decorrida em Roma, em 2009. Nesta linha, Domingo passado, o Arcebispo do Lubango, D. Gabriel Mbilingui, advogou contactos com as autoridades da RDC para que, citamos: “na verdade se abram a um diálogo interno, para que de facto, dirimida a causa principal deste conflito armado, possamos ter um país vizinho pacificado”. O Prelado Angolano ostentou esta tese, enquanto presidente do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM). Pelos rescaldos e a incandescência da situação, voltaremos à carga nos próximos tempos.

(Uma coprodução de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Tomás de Melo)

Luanda, quinta-feira 25 de Maio de 2017)

 

 

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