DEZ DIAS NA DIOCESE DE LWENA

Passo a relatar pormenorizadamente os factos dos últimos dez dias da Diocese de Lwena, que, de forma parcelar, fui partilhando com alguns de vós, com o único objectivo de oferecer a Deus quanto nos dá e de pedir as vossas orações.

25 Março – No Domingo de Ramos

Celebrei na Paróquia de Cristo Rei, encerrando a visita pastoral a esta comunidade que cresce a olhos vista. Durante o almoço festivo, recebemos a notícia do incêndio que afectou as camaratas mais antigas do Seminário Vianney. Não houve vítimas, pois todos os seminaristas encontravam-se na Celebração do Domingo de Ramos nas diversas paróquias da cidade de Luena. O fogo começou numa tomada eléctrica e se espalhou por todo o tecto falso antigo, de madeira talvez já centenária, e deu cabo da estrutura do tecto. Será preciso reforçar a estrutura com uma nova viga geral, retirar e colocar novo telhado, tecto falso, rede eléctrica, renovar parte das portas e janelas, além de refazer o reboco de alguns quartos e a pintura geral.

27 Março – Terça-feira Santa.

Na Terça-feira Santa decorreu a Missa Crismal, com a participação de boa parte dos sacerdotes diocesanos seculares e religiosos. Os sacerdotes da paróquia de S.Bento não chegaram a tempo, pois demoraram 58hs de Cazombo a Luena. Nesse mesmo dia, os missionários tiveram um acidente com a viatura: será preciso comprar duas portas e outros arranjos; felizmente os ocupantes do carro nada sofreram.

Na tarde desse mesmo dia, um meliante tentou entrar na casa dos Dehonianos no km 5, da cidade de Luena. Um seminarista, dando conta da ocorrência, alerta os colegas.

No fim da tarde chega a Cazombo em grave estado de saúde Fr. Gilberto Hickmann, proveniente de Calunda, a sua sede paroquial. A viatura ficou numa chana próxima de Cazombo, sendo levado numa motorizada até ao hospital.

28 Março – Quarta-feira Santa.

Fizeram-se diversas demarches para evacuar o Frei por via aérea, mas os médicos desaconselharam, devido ao gravíssimo estado de saúde em que se encontrava. O Eng.Kubioka e as irmãs acompanharam-no, além dos médicos, que, devido à falta de quase tudo no hospital, muito não conseguiram fazer.

29 de Março – Quinta-feira Santa.

Pelas 6hs30 da Quinta-feira Santa, dia sacerdotal, o Senhor chamou a si Fr. Gilberto. No dizer de Da. Ana, irmã do falecido Mons. Gonzalo López Marañón, também ele residente em Calunda, “Custa entender como vai uma pessoa que é tão necessária num lugar onde ninguém quer ir”.

Feitas as comunicações essenciais, às 11hs, partimos com duas viaturas para Cazombo, via Saurimo.

30 Março – Sexta-Feira Santa:

Demoramos 24hs de Luena a Cazombo, das quais apenas 05 foram para o descanso. Poucos kms antes do destino, no Bairro Jamba, aproveitando a rede telefónica, recebemos a notícia da morte da irmã Ernestina Calderón, que, depois de 32 anos de espera, tinha entrado na Diocese de Lwena como fundadora da Comunidade Guadalupana de Moxico Velho e que regressara a México não há muito tempo, para tratar da sua saúde.

Os 165km desde a fronteira do Alto Zambeze até à capital, Cazombo, foram percorridos em 8hs. Foi um ótimo tempo;  chegamos às 11hs. à missão; não esperavam que chegássemos tão cedo. Marcámos o funeral para as 14hs. Como a morgue não funciona, o corpo tinha sido conservado com pedras de gelo, colaboração das tropas sedeadas no Cazombo. A Igreja estava cheia, cheíssima. Após a celebração das exéquias, fomos a pé até ao cemitério. O Sr. Kubioka e equipa, além do caixão, tinham feito um sepulcro, onde depositamos o corpo do Fr. Gilberto. O amor do povo pelo seu missionário era mais eloquente no silêncio que nas lágrimas. Percebi que valeu a pena ir até lá; não se poderia ter privado a comunidade do corpo do seu missionário, que “escolheu a melhor parte”.

31 de Março – Sábado Santo

Após as orações da manhã, era meu projecto chegar ao Hospital para agradecer ao Sr. Director e aos médicos todo o esforço feito. Os seminaristas quiseram levar os carros a lavar no rio. Demoraram. Veio pouco depois a notícia mais triste destes dias: um deles atropelou três crianças, que foram levadas urgentemente ao hospital. Uma hora mais tarde, uma delas tinha falecido. Senti uma dor muito profunda. Não podia acreditar; um trabalho desnecessário em absoluto, que a muito custo aceitei, trouxe o pior resultado possível: a morte de uma criança, por sinal, filha de um trabalhador, que estava preparando a casa das irmãs Doroteias, que deverão entrar em Maio. Até hoje meu coração chora para dentro quando penso neste facto terrível. Até à nossa saída, pouco saí do quarto, rezando o terço, lendo salmos adequados ou ficando simplesmente em silêncio. Apenas colocando as coisas em ordem para partir ao dia seguinte.

Com um nó na garganta, começamos a Missa da Vigília, tão participada e viva. Quanta fé no meio do sofrimento! Nosso coração parece ressuscitar com essa celebração, que não apaga a dor, mas transforma-a à luz da Ressurreição do Senhor.

01 de Abril – Domingo da Páscoa

A primeira notícia que chega aos nossos ouvidos é de Luena: após a vigília e antes da missa do dia da Páscoa, arrombaram a Sacristia da Sede Paroquial de Nossa Senhora de La Salette, roubaram as cadeiras e as mesas e jogaram fora a imagem de Nossa Senhora com violência, mas sem danificá-la. Representa  Nossa Senhora a chorar. Choras porque? Choras pelos sacerdotes, pelas comunidades, mas hoje choras por Moxico… [1] Não passa uma semana sem que tenhamos que lamentar algum roubo, saque, ou profanação.

Um sacerdote acompanhou o funeral da criança falecida; os restantes começamos a Missa do Domingo da Páscoa, celebrada com profunda, serena e vibrante alegria. Em regime de acampamento, a comunidade paroquial, na Igreja da missão fez praticamente 04 dias de Retiro Espiritual para viver intensamente o Tríduo Pascal. Temas, Partilha da Palavra, momentos de oração, povoaram as horas desses dias.

Após o almoço, às 15hs, empreendemos o regresso. O caminho tornou-se quase impraticável. Houve algumas avarias no carro TOYOTA 13 novo, pois era a primeira viagem que fazia fora de Luena, várias vezes foi necessário “reinventar” a estrada. Nas 16hs que demoramos para percorrer os 160km no Município do Alto Zambeze nem sequer um camião ou carro vimos a andar, apenas uns tantos camiões literalmente enterrados nas poças de água.

 

02 de Abril – Segunda-feira da Oitava da Páscoa

A nossa viatura chegou a Luena às 17hs, depois de 26hs, e apenas 1 de sono. Às 18hs30 fui celebrar missa no Seminário Maior São José. Tive a ocasião de comentar a nossa viagem com bastante detalhe

 

03 de Abril – Terça-feira da Oitava da Páscoa:

Celebrei a Missa na Comunidade St. Teresa de Jesus às 7hs30, um pouco mais tarde que o habitual, por causa da intensa chuva. Abençoamos e inauguramos as três primeiras salas da Escola Teresiana no Bairro 04 de Fevereiro. A Diocese fez a entrega oficial do imóvel às Irmãs. De noite tive um encontro com os Seminaristas do Propedéutico.

 

04 de Abril – Quarta-feira da Oitava da Páscoa

Celebrei a Eucaristia neste dia dedicado à Paz na paróquia de Nossa Senhora da Reconciliação. A seguir, inauguramos e benzemos o Centro de Pastoral da Paróquia, que albergará vários projectos, entre outros, a Extensão Escolar, uma proposta que une a Evangelização (Bíblia, Catequese) com o estudo curricular.

Com esta obra abrem-se às portas para a conclusão do Centro de Pastoral de Cristo Rei no Alto-luena, cuja conclusão está prevista para fim de Junho, e o início das obras da Casa paroquial de Sacalumbo e a Casa do Clero.

No período da tarde telefonam as irmãs de Moxico Velho informando que foram novamente roubadas por alguém conhecido, mas declaram que não sabem como proceder.

 

Obrigado, Senhor, por tudo quanto recebemos de Vós. Aceitamos, mesmo que nem sempre seja do nosso agrado, sabendo que é o melhor para nós, porque vem de quem nos quer bem.

 

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