Dilema de Fair Play

VISÃO JORNALÍSTICA  

O processo eleitoral encerra, porfiando a boa gente, com uma angustiante interrogação: quando e como superaremos o dilema de fair play no desfecho de cada pleito? Na consciência alforriada, digladiam-se doravante duas pautas finais. Convergentes na classificação, divergem na natureza legal e nos números. A oficial ostentou, desde 6 de Setembro em curso, pela boca do Presidente da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), a seguinte ordem: 1) MPLA, com 61, 07% dos votos; 2) UNITA, 26, 67 %; 3) CASA-CE, 9, 44 %; 4) PRS, 1, 35 %; 5) FNLA, 0, 83 %; 6) APN, 0, 51 %. A contagem paralela da Oposição, vazada ao público com atraso e via insólita, alegou: 1) MPLA, 46 %; 2) UNITA, 32 %; 3) CASA-CE, 16 %; 4) PRS, 3, 68 %; 5) FNLA, 1, 32 %; 6) APN, 1 %.

Nem o veredito do TC vergou a resiliência de um conflito mais político do que de arguto legalismo. Por ventura, todavia, fluíram no meio deste clima, sintomas pedagogicamente consoladores, que arrolamos:

– O convite do novo Presidente da República eleito aos rivais de pleito na cerimónia da sua investidura. Belo gesto, descontada alguma dose de deselegância na formulação, em parte entendível pelo jogo de cintura perante forças conservadores do seu grémio! Uma fixação da oposição a esta deselegância pode influir em negativa emoção. Não será mais sábio ir, capitalizando o direito de censurar a descortesia pelo exemplo de urbanidade?

– O firme socorro do presidente da UNITA à equipa de reportagem da TPA, hostilizada pelos seus agastados partidários. A cena sobressaiu na conferência de imprensa, onde anunciou a esperada reação do seu partido aos resultados definitivos.

– O despontar de uma panóplia de juristas com perícia na fiscalização até de instituições como o TC. O fenómeno concede à soberania do povo uma mais-valia, no exercício da sua supremacia no organigrama do poder democrático. Doravante, a governação tem que contar com tamanho factor no peso da opinião pública, científico e jamais superficialmente sentimental. Que monges jurídicos de uma época se acautelem!

– O largo repúdio da linha editorial da midia pública e o vigor, alternativo, das redes sociais.

– A crescente liderança moral da Igreja, acentuando-se nessas encruzilhadas, não repõe, no presente, a necessidade de se meditar sobre a pertinência do ecuménico COIEPA, de feliz memória?

– Alguma sedimentação da supremacia da paz e da estabilidade no conjunto da psicologia nacional.

– A iminência de um parlamento menos submisso com a presença de tenores do cariz de um Makuta Kondo (que faz um sensacional regresso); Justino Pinto de Andrade (uma estrela mediática); Vicente  Pinto de Andrade (figura de difícil ortodoxia sectária); David Mendes (emblemático jurista de mente e mãos livres); Sidiangani Mbimbi (uma espécie de Makuta Nkondo-bis, nas proverbiais metáforas autóctones); e a esperança de mais revelações na vitalidade do hemiciclo, para variar e colorir de novos tons a casa das leis. Brilharão, todos estes astros, na mesma base regulamentar que estorva, por exemplo, as transmissões em directo das sessões pela midia pública? É uma das primeiras curiosidades de que se saboreará a sequência.

Entretanto, urge amainar a arrogância jubilar e a frustração de revolta, para um sistema à altura de gerar fair play entre vencedores e perdedores.

E em ordem a construir Angola como morada do Senhor, finalizamos, com a seguinte exortação: «Todos somos chamados a vigiar para que o bem comum satisfaça a todos.» Fim de citação de um breve trecho, extraído da última Nota Pastoral da CEAST.

(Uma coprodução de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Esmeralda Chiaca)

Luanda, quinta-feira 14 de Setembro de 2017.

 

 

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