A família executora da misericórdia em tempos de desafios: Sebastião Martins

MartnsTodos juntos, éramos mais de duas mil famílias das vigariarias de Luanda, reunidos em Talatona na Paróquia São João Paulo II, este domingo, para encerrar a Jornada Anual dedicada à «Família executora da misericórdia em tempos de desafios».

Ainda com o sabor do farnel na boca, após tão honrada solenidade de domingo, revejo com tamanha satisfação aquele dia de união, o valor da família, e é para mim uma questão de justiça e de glória escrever algumas palavras sobre este certame e a família cristã.

Num contexto em que a família vive um sem-número de desafios, é realmente muito reconfortante içar bem alto a bandeira da união, da indissolubilidade e do amor que deve guiar cada um de nós. Como tal, as palavras do Núncio Apostólico de Angola e São Tomé, Dom Peter Rajic, na homilia, encaminham-me, como filho, marido, pai e avô que sou, e é por meio delas que reproduzirei o que tão bem me fez.

Hoje, o mundo tem necessidade de compaixão, e essa necessidade é ainda mais evidente quando vemos pessoas inocentes a sofrer as consequências do mal, sendo impotentes diante dos poderes e dos acontecimentos que estão além do seu controlo.

A palavra compaixão é definida como o sentimento piedoso, a simpatia e a preocupação para com o sofrimento e o infortúnio dos outros, juntamente com o desejo de os aliviar.

Compaixão, como bem disse Dom Peter Rajic, deriva da palavra eclesiástica latina compassione cujo significado é «sofre com».

Podemos todos concordar que actualmente, neste mundo, não há compaixão suficiente, especialmente para com os mais pobres, as minorias que não têm voz e os necessitados que não podem ajudar-se a si mesmo. São poucos ou quase nenhuns, os seres humanos que têm compaixão ou estão dispostos a serem compassivos. Aliás, vemos que muitos querem ter a compaixão dos outros, mas sem darem a sua. Temos de oferecer mutuamente, ao perdoar, consolar e confortar, pois a compaixão surge nos nossos corações como o fruto da nossa fé em Deus, que desperta em nós o desejo de ser misericordioso e compassivo.

Na homilia, Dom Peter Rajic agarrou no capítulo sete de São Lucas, na «Ressurreição do filho de uma viúva», para ilustrar os argumentos do seu discurso e nos mostrar uma das mais bonitas obras de compaixão. Jesus foi tocado pelo sofrimento de uma mulher que chorava. Ao vê-la, compadeceu-Se dela e disse-lhe para não chorar. Jesus foi movido no fundo do Seu coração pela tristeza desta mãe, uma mulher que já conhecia a dor do marido falecido e agora a dor pelo seu filho. Jesus veio para que a viúva partilhasse a sua dor com Ele, com estas palavras que trazem esperança: «Não chores». Jesus queria mostrar à mãe e a todos os acompanhantes que a morte não tem a última palavra na vida e que Ele tem o poder que é mais forte do que a morte, manifestado pela misericórdia. Jesus aproximou-se e tocou no caixão e os que transportavam pararam. Disse então: «“Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!” O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe».

No dia da família, oferecido a todas as famílias de Luanda e da República de Angola, além da compaixão e da misericórdia, o sacramento do matrimónio foi fundamental para percebermos a importância da família. O vínculo do casamento entre um homem e uma mulher, por meio do consentimento, é um compromisso sério de fidelidade e revelador de amor. Deste amor e fidelidade, o casal abre-se para o dom da vida que suscita nos filhos a dignidade do sacramento.

É nas famílias que a compaixão e a misericórdia são expressas e devem ser manifestadas. A compaixão é outra palavra para declararmos misericórdia. Jesus diz-nos para sermos misericordiosos, à imagem do seu Pai. Foi neste momento que recordámos os ensinamentos da Igreja sobre as obras de misericórdia, pelas quais somos chamados a construir as nossas vidas. As obras de misericórdia são as acções caridosas, por meio das quais ajudamos o próximo nas suas necessidades corporais e espirituais.

Dom Peter Rajic pôs em evidência a recente exortação apostólica do Papa Francisco, A Alegria do Amor (Amoris Lætitia), que apresenta várias dificuldades que desafiam muitas famílias no mundo e, para essas dificuldades, devemos procurar respostas que estejam em sintonia com a misericórdia de Deus.

O Papa menciona, entre muitas outras coisas, que as famílias têm outros direitos, como o de poder contar com uma adequada política familiar, por parte das autoridades públicas, no campo jurídico, económico, social e fiscal. Neste sentido, fomos confrontados com uma realidade que está bem próxima de nós, com as angústias das famílias e com os seus dramas, quando têm de enfrentar as doenças de um ente querido sem acesso aos serviços de saúde adequados ou quando se prolonga o tempo sem ter conseguido um emprego decente.

Consciente disso, e com o sentimento mais introspectivo, o Núncio Apostólico de Angola e São Tomé lembrou-nos da quantidade de funerais a que temos assistido no nosso país, especialmente de crianças, repetindo a situação dolorosa da viúva do Evangelho que perdeu o seu único filho. A morte das pessoas, especialmente a dos jovens, deixa as famílias e os amigos devastados. Como crentes em Deus e amantes defensores da vida, da concepção à morte natural, é imperativo incentivar a oração, para que Deus tenha misericórdia de nós, nos envie a Sua Graça para moldar e mudar os nossos corações de pedra em corações de carne, para que a indiferença ao sofrimento dos outros não permaneça mais, mas sim a misericórdia que nos faz acudir todos sem excepção.

À reunião das famílias, adaptou-se a situação do nosso país ao apelo do Santo Padre às autoridades estaduais, para que façam tudo o que for necessário para garantir assistência médica a todos e a prestação de cuidados adequada, a fim de combater e prevenir a malária e a febre-amarela que tanto têm afligido o país, especialmente as crianças e os jovens.

O apelo é em nome da responsabilidade e da solicitude para com os que sofrem, que haja verdadeiramente uma acção sincera, eficaz, responsável por parte das instituições do Estado e de um sistema de fiscalização para ajudar os doentes. Isso sim será um verdadeiro acto de misericórdia corporal para com os irmãos que sofrem, acudindo-os do sofrimento e mostrando-lhes um sinal da bênção de Deus.

No discurso, foram enaltecidas as palavras encorajadoras do Santo Padre sobre a importância da família na Igreja. Com íntima alegria e profunda consolação, a Igreja olha para as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-lhes pelo testemunho que dão e encorajando-as. Graças às famílias, torna-se credível a beleza do matrimónio indissolúvel.

A Igreja é a família das famílias, constantemente enriquecida pela vida de todas as Igrejas domésticas. Assim, em virtude do sacramento do matrimónio, cada família torna-se para todos os efeitos um bem para a Igreja. A salvaguarda deste dom sacramental do Senhor compete não só à família individual, mas a toda a comunidade cristã. O amor vivido nas famílias é uma força permanente para a vida da Igreja. O objectivo do matrimónio é um apelo constante a crescer e a aprofundar este amor.

Um casal, na sua união de amor, experimenta a beleza da paternidade e da maternidade, partilham projectos e fadigas, anseios e preocupações, aprendem a cuidar um do outro e a perdoar-se mutuamente. Neste amor, celebram os momentos felizes e apoiam-se nos episódios difíceis da história da sua vida. A beleza do dom recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce, a amorosa solicitude de todos os seus membros, dos pequeninos aos idosos, são apenas alguns dos frutos que tornam única e insubstituível a resposta à vocação da família, tanto para a Igreja, quanto para a sociedade.

As famílias católicas são, portanto, convidadas a ser o que foram feitas para ser: uma comunidade de fé, esperança e caridade que sai para compartilhar, cuidar e ser justa com os outros.

Os pais são chamados a ser exemplos vivos de fé e de caridade para com os seus filhos, por meio das suas acções e das suas palavras; os pais que acreditam em Deus são canais de fé; os pais que são fiéis um com o outro são um exemplo de fidelidade duradoura; os pais que oram com os seus filhos e vão à igreja regularmente com eles são modelos de piedade e os seus primeiros instrutores de fé.

Um genuíno ditado continua a ser verdadeiro e consistente, sublinhou Dom Peter Rajic: a família que reza unida permanece unida. Os pais que são compassivos e misericordiosos com os seus filhos podem contar com eles, pois ajudam-nos a tornarem-se pessoas melhores quando crescerem.

Se quisermos alcançar a misericórdia e a compaixão de Deus, também deveremos estar prontos e dispostos a sermos compassivos e misericordiosos em todas as situações que surgem nas nossas vidas, da mesma forma que Jesus viu e sentiu a dor e a angústia da mãe viúva e teve compaixão, pois a «compaixão é um profundo desejo de ver os outros aliviados do sofrimento, o amor é a outra faceta, um forte desejo de ver os outros felizes». Por isso, quando expressamos a simpatia, a compaixão, a piedade e a misericórdia, quando exprimimos o amor e a amizade, estamos unidos no sofrimento dos outros e eles tornam-se nossos vizinhos e nossos irmãos.

Com os actos de misericórdia, facilitamos a carga dos outros e também a nossa e começamos uma nova vida, porque onde existe fé, esperança e amor também existe Deus.

Sebastião Martins

(Leigo Católico)

 

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