Lukoki, Ética Republicana e Torrão

VISÃO JORNALÍSTICA 

Avultam os renomados patriotas que optam ser enterrados no torrão. “Le terroir”, um conceito caro ao poeta senegalês Leopold Senghor. Ambrósio Lukoki, figura do MPLA e sonoro paladim da ética republicana, no final do ano passado, acaba de engrossar o elenco. Um rol há pouco refrescado pelo general Ben-Ben (inumado em Lupitanga, sua terra natal, na província do Bié)! Ou, mais além: Pedalé, pioneiro ministro da defesa (Subantando /Cabinda); o escritor Ndunduma (Huambo); Holden Roberto, cotutor da independência de Angola (em Mbanza Congo), etc….

Moral ou mensagem da história, focalizando-nos na pessoa de Lukoki, o mais recente e paradoxal em recato e fascínio? Faleceu no passado 1º de Outubro do corrente de “miocardiopatia” na clínica Girassol, em Luanda. Granjeara notoriedade nacional quando em vida, como Ministro da Educação, após a independência, procedera à nacionalização das estruturas educativas da Igreja, entre seminários e colégios, e pelo cargo de Secretário do Bureau Político para a Esfera Ideológica – na primeira década de ‘80. Parecera reincarnar um famoso “ministro mata padres” dos anos tenros pós-monarquia, da revolução republicana em Portugal. Em verdade histórica, Lukoki chega a perfilar entre os naturais sucessores de Agostinho Neto como José Eduardo Dos Santos, o laureado final. A surda rivalidade do par vazou em público na chamada “crise do quadro”, de 1984, que desembocou no seu afastamento. Ostracizado desde então (além das pomadas), soube mostrar a verticalidade de carácter que os convergentes  encómios frisam. Destacamos: a resiliência, a coerência, a humildade (traços, que pensamos aprofundar em obra própria, se Deus quiser). Míster é focarmos, agora e em adição, a sua última vontade de repousar no torrão umbilical, ancestral: a aldeola de Uembo, periférica à sede comunal de Quibocolo, município de Maquela do Zombo, província de Uige.

Lukoki manteve densa interacção intelectual com o coautor da presente crónica, de quem posfaciou o livro “Maquis e Arredores”, entre outros. Comungaram a utopia marxista de emancipar a humanidade, com a ferramenta do MPLA. Em constância pétrea nestes trilhos, Lukoki dispensou os rituais adeus religiosos, para si supérfluos, segundo íntimos familiares. Ele vincara, na conclusão do posfácio pré-citado, uma porção do seu perene grito de Ipiranga na seguinte mensagem: “O papel da sociedade civil deve fazer-se cada vez mais crítico no que concerne a governação de Angola. (…) o passado imbricado no presente só tem valor se garantir condições cada vez melhores para o futuro.” Na esteira, lastimava a traição à orientação de Neto por uma economia endógena, sucedânea à exógena da colónia. Idem para a incúria, hodierna e agravada pela monocultura voltada para o petróleo. O voto de descansar nas entranhas do agreste Uembo ressoa, assim, como actualizada reivindicação de reviravolta aos sobreviventes. Qual é o grau da sua escuta e absorção? A ver, estamos.

Na Igreja, fechou-se o ciclo do episcopado de Dom Filomeno na diocese de Cabinda. O sucessor, Dom Belmiro Chissengueti, recebeu o báculo domingo passado, em missa campal muito concorrida, no adro da Sé. Tocou o calor dos fiéis, mais animados, ainda, quando D. Belmiro confessou que foram ultrapassadas todas as suas expectativas. Ciente da complexidade geopolítica e social da região, teve que se exercitar em poliglota, falando português; ibinda (a língua autóctone e galvanizante de chofre); francês (para os hóspedes da vizinha RDC e República do Congo Brazzaville). O seu magistério incidiu na sua apresentação, de Pastor, ao conjunto do seu rebanho. A este título, sublinhou, citamos: “Como filho da Igreja, apresento-me como um simples e humilde continuador da obra iniciada pela missionação espiritana, continuada sob a liderança do nosso primeiro Bispo, Dom Paulino Madeka, e, até hoje, por Dom Filomeno Vieira Dias.”

VISÃO JORNALÍSTICA

(Uma coprodução de Siona Casimiro e Padre Maurício Camuto. Apresentação de Tomás de Melo). Luanda, 11 de Outubro de 2018

 

 

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