Mandato Abençoado

Arrancou anteontem o mandato presidencial de João Manuel Gonçalves Lourenço. Logo, findou de jure, a longínqua era do predecessor, José Eduardo Dos Santos. Uf! O palpitante processo das quartas eleições gerais, vivido praticamente nos últimos dois anos em Angola, também, transitou para o pretérito.

O tempo dará a justa medida da mudança das duas personagens no timão do barco da pátria comum. Lourenço tomou posse na Praça da República, vulgo Memorial António Agostinho Neto, o primeiro Presidente da República pós- independência. Na cerimónia, conjugaram-se a carga histórica, a solenidade, a euforia e uma enchente de estadistas estrangeiros.

E que impressionante variedade, nesta última bancada! Lado a lado, vimos, por exemplo: − O Ivoiriense Alassane Ouatara (a pisar o solo angolano pela primeira vez, como que encerrando o capítulo de um desaguisado diplomático); − O Congolês Joseph Kabila (vizinho ora incómodo por mau acatamento do desfecho constitucional do seu reinado); − O Ruandês Paul Kagame (estratégico parceiro ímpar no intrincado dossiê dos Grandes Lagos); − O Português Marcelo Rebelo de Souza (o chefe da antiga metrópole e, espontaneamente, mais aplaudido pela assistência. Encantou o coração do povoléu anfitrião num rodopio de gestos e atitudes tais como um simpático mergulho na praia da Kianda, a partilha de uma partida de basquetebol, repentinos ‘selfies’ com transeuntes, nos seus passeios e breves diálogos com os mesmos em estilo desabrido. Em suma, Marcelo demonstrou a íntima afinidade com a alma simples e volátil do mwangolê, neutra às melindrosas desinteligências da alta laia).

A organização da investidura foi impecável, confirmando apenas a capacidade nacional em tamanhas realizações. Mas, ufania à parte, falhas não faltaram. A breve detenção do repórter Pedro Teca, do jornal “Folha 8” (de linha frontal contra as falhas governativas), foi uma destas manchas, assim como aquela falha de caneta na hora da assinatura. O caso do jornalista carece de cabal clarificação, em abono da advocacia do novo Presidente pela tolerância da crítica por parte dos servidores públicos. Além deste incidente, reduziu o gáudio a notória ausência da Oposição, expondo a nu os limites e desafios de sobra da nossa paz e reconciliação nacional. A Oposição entendeu assim protestar contra o controverso chumbo das suas queixas pelo Tribunal Constitucional. Até quando se deleitará nesse agastamento aliás cívico? A ver vamos, presumindo que dure pouco ante a iminente retomada da vida parlamentar que impõe o exercício de sensata conciliação. O novo Presidente deve submeter já na primeira sessão, que abre a 15 de Outubro próximo, o Orçamento Geral do Estado para 2018. Primeiro orçamento do seu executivo, espera-se que evidencie os dados consentâneos ao lema “Melhorar o que está bem e Corrigir o que está mal”. Vincou esta divisa no seu discurso de tomada de posse, de tonalidade mais à pomba do que a falcão como a última vez. O marcial rubro e preto cedeu o lugar à amena cor branca, nas camisolas vistosas dos activistas na Praça da República, anteontem. Até os encómios à fortuna eleitoral têm exaltado o papel do novo Presidente no apaziguamento das mentes.

O Santo Padre, inclusive, abençoou o seu mandato – uma graça que os seus predecessores não tiveram pela conjuntura das respectivas épocas. Uma bênção de timbre condensado nas explícitas palavras que citamos: < < (…) Saudações e votos de bom êxito no seu mandato ao serviço da coesão, harmonia e crescente prosperidade dessa nobre Nação sobre a qual com ferventes súplicas imploro do Altíssimo benéfica e especial assistência para que se esforcem os vínculos de fraterna convivência no concorde labor dos cidadãos em ordem a um futuro sereno cada vez mais solidários sob as bênçãos de Deus”>>. (Fim de citação parcial do telegrama do Papa Francisco ao novo Presidente da República de Angola, João Lourenço).

(Uma coprodução de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Esmeralda Chiaca)

Luanda, quinta-feira 28 de Setembro de 2017.

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