Meditando ‘Shitole’

                          VISÃO JORNALISTICA 

Porquê o presidente norte-americano, Donald Trump, comprou mais uma briga supérflua? Isto por ter comparado, na sua fama de xenófobo, os migrantes haitianos e africanos a “Shitole”. Quer dizer, lixeira, retrete, sarjeta, ruim na semântica do vernacular inglês yankee. Morfologicamente, a pejorativa terminologia junta dois vocábulos: ’Shit’ (excremento) e ‘Hole’ (buraco, lugar desagradável). O lapso gerou um repúdio geral, expresso cá pelo emblemático presidente da Comissão da União Africana, o Chadiano Moussa Faki Mahamat. Segundo a mídia internacional, Trump desculpou-se em discreta carta enviada aos Chefes de Estado do continente recém-reunidos em Adis-Abeba. Nesta correspondência, ele teria atribuído a bronca toda à má interpretação do seu pensamento. Verdade?! Sim e não. Não, pois tal explicação não desmente a estigmatização confirmada por testemunhas oculares do encontro onde a usou. Sim, por consciência de um faro diplomático, que não falta integralmente ao mais alto mandatário da primeira potência mundial.

Mas, para além das legítimas reacções emotivas, sensato é a África meditar cada vez mais a sério sobre as causas e vias de superar deveras tal estigma. Ou, parafraseando o novo presidente angolano, João Lourenço: «O paradoxo (…) de ser um continente rico em recursos naturais, mas assolado pela pobreza». Ou, ainda, “um corpo inerte onde cada abutre vem debicar o seu pedaço”, uma alegoria de Agostinho Neto com mais de 40 anos. E foi no mesmo fórum pan-africano, daquela vez em Cartum (no Sudão hoje em balcanização radicada no islamismo e no racismo). Mero palavreado de circunstância, parece! Pois, a incúria dos caminhos da viragem, ela, se repete de uma cimeira a outra dos responsáveis do continente.

Ressalta de novo esta impressão da 30ª cimeira, realizada na Etiópia de 28-29 de Janeiro do ano em curso. A União Africana gorou em definir a fonte autónoma do seu orçamento, ora suportado a 80% pela Comunidade Internacional. A este ritmo, como conquistar o atestado mínimo de maturidade? Que os novos estadistas pressionem mais na sagacidade e resiliência em inverter o quadro! Tal como, em sinergia, a virulência popular da cidadania contra as mordaças das suas elites dirigentes. Pertinente, foi a mensagem do Secretário-geral da ONU, António Guterres, na tribuna de Adis-Abeba. Ao contrário de Trump, brindou-nos o apreço de considerar África como “uma das forças do bem no mundo”. Porém, nem tão enlevo de carinho eclipsa as vergonhosas realidades tais como: contínuas guerras civis; evasão dos capitais para as antigas metrópoles causada pelas próprias elites governativas [por cá, surgiu um arauto a justificar o vício por uma guerra vencida há 15 anos]; o défice democrático culminando no abuso dos mandatos; 1.500 médicos desempregados numa Angola que precisa de 6 mil; etc.

Enquanto isto, o calendário civil proporcionou à Igreja Católica em Angola um olhar mais sensível e humano para os humildes da terra. Ocorreu por ocasião do 442º aniversário da fundação desta cidade de São Paulo de Luanda e o Dia mundial dos Migrantes. O Arcebispo de Luanda, Dom Filomeno do Nascimento V. D, ressaltou na missa dedicada à efeméride da capital. Na sua homilia, advogou um ordenamento básico do território à altura de satisfazer a necessidade de casa condigna ao assalariado de baixa renda. Aquele que vence mensalmente, exemplificou, uns parcos 50 mil Kwanzas. Na vertente migratória, registou-se a pregação do responsável da CEAST pela pasta, Dom Anastácio Kahango, Bispo Emérito Auxiliar de Luanda. Martelou aos seus compatriotas o profético repto bíblico, que citamos: «Recorda-te tu, também foste peregrino no Egipto. Por isso, procura acolher o peregrino. Então, Angolano, tanto quanto possível, acolhe!»

(Uma coprodução de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Tomás de Melo)

Luanda, quinta-feira 01 de Fevereiro de 2017.

 

 

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