A misericórdia como estilo de vida

MartnsQuando ouvi do Papa Francisco que a misericórdia é um estilo de vida que deve levar os cristãos a «arregaçar as mangas» para ajudar quem mais precisa, disse para mim mesmo: «há aqui qualquer coisa que não está bem»!

De súbito, o efeito foi o impacto da estranheza que as palavras causaram em mim, de que as obras de misericórdia não são questões teóricas, mas testemunhos práticos e concretos. Isto foi dito no fim do mês de Junho, durante a audiência jubilar extraordinária que levou milhares de crentes à Praça de São Pedro.

Vou explicar o porquê da minha admiração. Acabei de ler, pela segunda vez, o livro do jornalista italiano Nello Scavo – A Lista de Bergoglio –, uma obra que exalta os feitos misericordiosos do Santo Padre.

Mario Bergoglio – o Papa Francisco – participou activamente numa organização, se quisermos clandestina, da qual era a figura principal, ocupada durante muitos anos a proteger pessoas da ditadura argentina, sem nunca pedir o certificado de baptismo, o registo penal ou as opiniões políticas daqueles que ajudava. E do lado do Papa Francisco há um silêncio sobre este tema; e isto é que é estranho, pois, como ele próprio disse, a misericórdia é um estilo de vida, um testemunho prático que deve ser dinamizado.

Nello Scavo, em Portugal, no ano de 2013, na conferência «Uma esperança sem fronteiras» cuja primeira parte era dedicada à Lista de Bergoglio, à conversa com o Padre Tolentino Mendonça, afirmou que, no início, este silêncio o fez desconfiar; achava que Bergoglio «pudesse ter alguns telhados de vidro, mas na realidade estas pessoas quiseram foi respeitar o silêncio que Bergoglio guardou durante todos estes anos. Algumas [pessoas] têm um certo sentimento de culpa por terem sobrevivido e interrogam-se por que estão vivas, enquanto o irmão, os amigos e tantos seus conhecidos estão “desaparecidos”».

A minha interpretação para o silêncio do Papa Francisco (que só consegui fundamentar depois da segunda leitura do livro) é a seguinte: para os conhecedores do texto bíblico, rapidamente nos vem à memória o capítulo 6 de São Mateus, que ilustra nitidamente a omissão de Bergoglio, as boas obras que traduzem a justiça, designando a fidelidade na observância das três práticas fundamentais da religião judaica – a esmola, a oração e o jejum.

Jesus condena a vã ostentação da prática das obras de misericórdia. Não condena o bom exemplo «Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te.»

A misericórdia cristã tem «olhos para ver, ouvidos para escutar, mãos para aliviar e não pode ficar indiferente ao sofrimento alheio». As pessoas que passam pela vida, que andam por ela sem se aperceberem das necessidades dos outros, sem ver tantas necessidades espirituais e materiais, são pessoas que passam sem viver, que não servem os outros.

É preciso experimentar a misericórdia do Pai, para não permanecermos insensíveis diante das necessidades dos nossos irmãos. Mas não devemos envaidecer-nos, nem permitir que toquem trombeta diante de nós, para publicitar as obras de misericórdia.

Afinal percebo e pergunto: então qual era a estranheza de tão grandiosas palavras?

A misericórdia deve ser um estilo de vida, um testemunho prático dinamizado, porém, praticá-la não é o mesmo que utilizá-la para promover a imagem ao público.

 

Sebastião Martins

(Leigo Católico)

 

 

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