Remoinho de Fofocas

VISÃO JORNALÍSTICA

Um remoinho de fofocas angustiou o país no mês transato. Causa? A descrença, do grosso da opinião pública, ao chavão oficial de “visita privada”, com que se justificou a ida do Presidente da República à Espanha. Cresceu, na boa gente, a curiosidade sobre o real estado de saúde do Presidente da República. O traço confirma a consciência colectiva da invulgar importância do timoneiro num barco. De jure como de facto, ele dita o rumo, gostemos dele ou não. Nada de mais natural, o interesse comum e incomum sobre a sua boa forma. Países há em que este elemento assenta em regras abertas. Quer dizer, de clara notoriedade pública. Ou seja, as inquietantes pulsações do factor serem divulgadas de imediato, para o bem da estabilidade estratégica do Estado e emocional da Nação. Não nos situamos aquém deste patamar, vacilando entre o sigilo do Estado e a censura burocrática? Inclinamo-nos para a segunda hipótese da pergunta, pela experiência, quer remota, quer fresca. Na remota, recordamos o véu de mistério tecido à volta da fatal viagem do primeiro Presidente da República à União Soviética. Os pares da direção do partido fizeram esta opção. Quiçá, em longínquo atavismo da cena da defunta Rainha Jinga, ostentada em procissão no trono, fingindo a sua sobrevivência, qual “guia imortal”!

Compreensível nos melindres da época da guerra fria, o caso de Neto não resistiria, hoje em dia, à crítica histórica, do seu condão de paternalismo. Isto é, a astuta irresponsabilidade dos donos da soberania pela elite autocrática, que a privatiza. Será que não se aprendeu desde então ou será teimosia em trilhar os mesmos passos? Quão ensurdecedor, quanto pesado e moroso foi, em Maio passado, o enigma da longa estadia do PR na Espanha! O vendaval de boatos e circunstanciais desmentidos (de fontes mais subjectivas que objectivas) só concorreram para a poluição. Até, varreu a autocensura alegando “uma situação intimamente de foro pessoal”, em dogma aplicado à figura, por excelência pública. Porquê e para quê? Responda à divindade a quem apetecer.

A nós leigos, a primeira fonte oficial a sossegar os ânimos foi o ministro das Relações Exteriores, Jorge Chicoti, com a sua entrevista à RFI no dia 29/5. E teve a sorte de, a credencial concreta de franqueza não tardar. Por subtil sincronia ou não, o presidente e sua esposa desembarcaram no aeroporto ’4 de Fevereiro”, nesse dia, num espectáculo de irradiante fisionomia. Uma chapada sem mão à ‘mujimbice’, troçou-se! Longe, todavia, de saldar o tino sobrante de muitas interrogações. E citamos: para quando, se consumirá a criação de condições de tratamento adequadas do chefe na sua terra? Como explicar a assimetria de um tabu voluntarioso com o tratamento em tecnologias computorizadas de fabricantes alheios? Porquê a inércia dos eleitos na iniciativa de aclarar a legislação ou regulamentação de gestão pública da saúde presidencial? Pelo seu transcendente carácter nacional, o ponto merece mais convergência patriótica do que paixões politiqueiras.

E que tristeza para o nosso jornalismo, o oneroso aparato público em pior desgaste, com o seu mutismo quase budista no episódio! Foi a RFI (dos abominados ocidentais ou imperialistas), a arrancar a preciosa informação de uma fonte oficial. A ética (o interesse público) e a deontologia (a proximidade) preconizam tal performance aos jornalistas angolanos. E não a sua diversão em miúdos colaterais. Imaginemos: se viesse cá um chefe de Estado Alemão, Americano, Britânico, Chinês, Francês, etc… passar um mês em misteriosa “visita privada”. Que avalanche dos respectivos jornalistas conterrâneos não nos invadiria! E, nestes tempos de globalização, quanta chatice geraria a recusa de vistos à essa turma! Da nossa parte, pelo que se sabe, ninguém tentou ir à Madrid ou Barcelona. Acomodámo-nos na ilusória expectativa de fontes oficiais, reputadas de mudas, sobre um boletim clínico do nosso emblemático mandatário. E os poucos ousados, salvo parca excepção, recorreram à via alternativa do mero ‘copy past’ das fofocas das redes sociais. Haverá uma guinada nas próximas vezes? Confiamos, consoante a coerente soberania e seu entendimento.

Enfim, profissionalismo, precisa-se, enraizado, quanto a nós, no Ponto 5 do Decreto Inter Mirifica Sobre os Meios de Comunicação Social.

Citamos: “A comunicação pública e oportuna de notícias sobre acontecimentos e coisas facilita aos homens um conhecimento mais amplo e contínuo dos factos, de tal modo que pode contribuir eficazmente para o bem comum e maior progresso de toda a sociedade humana”.

(Uma coprodução de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Tomás de Melo)

Luanda, quinta-feira 08 de Junho de 2017)

 

 

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