O Silêncio dos inocentes

MartnsEra sábado – datado pelo número 13 do mês de Agosto de 2016 – e a brisa da noite desabrochava, tranquila, na vida de milhões de pessoas. Aparentemente tudo corria normal, no entanto, não percamos, entre a embriaguez feliz das nossas vivências, a lucidez do infortúnio de outras realidades.

A localização define-se no Norte da República Democrática do Congo, na cidade de Beni.

O massacre contabiliza a morte de 36 pessoas, numericamente o mais fatal deste ano naquela região. Pela mão de criminosos, 22 homens e 14 mulheres foram agredidos até à morte, nas suas casas, nos seus campos, na sua terra. O porta-voz do exército local, Mak Hazukay, por meio da agência de comunicação Reuters, afirmou que o ataque foi executado por rebeldes das Forças Aliadas Democráticas (ADF).

Bem distante dali, à janela do Palácio Apostólico, na Segunda-Feira de 15 de Agosto, feriado no Vaticano por ocasião da Solenidade da Assunção de Maria, o Papa Francisco lembrou as vítimas daquele massacre, pelas atrocidades, evidentemente, mas, também, pelo silêncio que o mundo lhes reservou. Disse: O meu pensamento está com os habitantes do Kivu do Norte, na República Democrática do Congo, recentemente atingidos por novos massacres que se perpetuam devido a um silêncio vergonhoso e sem chamar a nossa atenção.

A perpetuação da atrocidade também passa pelo seu silenciamento. A denúncia, o julgo e a sua difusão, prometem a atenção de quem ausculta e de quem se insurge contra a injustiça e a iniquidade humana. Silenciar as vítimas, os inocentes, dá força a quem oprime, permitindo-lhe a existência sorrateira entre as penumbras do esquecimento. Ainda sobre isto, e na mesma janela para o mundo, o Santo Padre disse: por desgraça fazem parte de tantos inocentes que não têm peso na opinião mundial.

Longe do Vaticano, mas perto do Congo, escrevo na minha secretária, em Luanda, sobre estas vítimas silenciadas, respeitando a sua memória pela tentativa de lhes dar voz, não amordaçando o seu sofrimento ao eco seco da memória perdida. Esta, é a minha missão com este artigo, falar dos que não são falados, relembrar quem ninguém lembra, protagonizar quem a opinião publicada omitiu e, por isso, quem a opinião pública desconhece.

Reafirmo: estes inocentes são invisíveis, passando o seu sofrimento nos intervalos do esquecimento colectivo. Para eles, o Santo Padre pede: que possa chegar o quanto antes o início de uma cidade de paz, de justiça, de amor, à espera do dia em que finalmente se sentirão seguradas por mãos que não humilham, mas que com ternura as reerguem e as conduzem até [a]o céu.

Não podia estar mais convergente com o desejo do Papa Francisco. Reforço, apenas, a sua prece com a aspiração de ver as dores e as ansiedades das populações esquecidas, em tantas partes do mundo, escutadas pelo senso da injustiça e, por isso, reprimidas num futuro que ainda todos nós poderemos conhecer.

Sebastião Martins  (Leigo Católico)

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