Somos todos estrangeiros, por Sebastião Martins

barcÉ isto: em Junho celebra-se o Dia Mundial dos Refugiados. De súbito, começo a sentir arrepios, um ardor que nasce na espinha e morre na cabeça, desse queimor explode o absurdo que inflama as representações que o dia assinala.

Refugiado está para migrante, como estrangeiro está para sociedade, e absurdo está para O Estrangeiro de Albert Camus.

É isso: quando penso em refugiados, penso numa sociedade estrangeira e, ao pensar-nos como estrangeiros, penso n’O Estrangeiro do Nobel da Literatura e em nós como uma réplica do protagonista do livro.

Um argelino europeu descendente de emigrantes colonizadores não chora no funeral da mãe e, num dia de calor veemente, mata um árabe. É julgado e condenado, mas fica a dúvida se é posto na guilhotina pelo crime que cometeu, só porque estava calor, ou por não ter lamuriado a morte da mãe, por ter ido logo nadar na praia, ter visto um filme cómico e ter arranjado uma namorada. Completamente exterior às convenções e à moral vigentes, Mersault era um verdadeiro estrangeiro em qualquer organização social ou familiar. Não fez o que dele se esperava, e essa foi a sua grande culpa.

O filósofo francês – Jean-Paul Sartre – prefaciou O Estrangeiro e, quando o comentou, disse que por detrás de palavras importantes como a justiça e o direito encontramos um homem que está atirado no absurdo e na arbitrariedade, pois entende que a própria existência não faz sentido.

Os estrangeiros não são os refugiados da Síria, do Afeganistão ou da Somália. Os estrangeiros são os autóctones, os habitantes da sua própria pátria, os que têm uma morada cativa e, que caídos no sofá do absurdo, assistem às notícias promotoras de comoção. Mersault, o protagonista do livro de Camus, depois da morte da mãe, pagou para ir ao cinema ver uma comédia, nós vemos o drama gratuitamente na televisão, na rádio ou nas primeiras páginas dos jornais e, no clímax do absurdo, brota do olho a lágrima fácil.

Alienada e amoral, habituada ao sofrimento alheio, a sociedade estrangeira – nós – com a sua passividade, está a condenar milhões de refugiados a uma vida insuportável e milhares à morte; está a falhar na assistência e na protecção humanitária essencial.

Estamos a testemunhar à maior crise mundial de refugiados da nossa era, com bebés a dar à costa, crianças a chegarem sozinhas à Europa, milhões de mulheres, homens e crianças a batalhar para sobreviver no meio de guerras brutais, às mãos de redes de traficantes de pessoas e de governos que seguem os seus egoístas interesses políticos em vez de mostrar a mais básica compaixão humana.

Num relatório intitulado «Os perigos a cada passo», publicado este mês, o Fundo das Nações Unidas para a Infância precisa que no decorrer dos primeiros cinco meses do ano 7000 crianças desacompanhadas atravessaram o Norte de África rumo a Itália.

Desde o dia 1 de Janeiro que 2859 pessoas morreram no Mediterrâneo, incluindo um elevado número de crianças. Em 2015, o número foi de 3770, de acordo com dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Tem-se trabalhado, sim, tem-se feito, sim, mas é quase nada. Apesar das diversas acções de consciencialização, o número de refugiados continua a crescer e a rasgar as fronteiras do inimaginável.

A nossa culpa é a culpa de Mersault, não fazemos o que se espera de nós, esta é a nossa grande culpa. Todavia, há uma grande diferença: ele foi punido porque a sociedade dele tinha consciência de uma expressão de emoção diante da morte – ainda que não fosse a melhor, havia dinâmica e acção –, a nossa sociedade é estrangeira, é marginal porque já não se comove, naturalizou o sofrimento e não pune nem moralmente nem conscientemente a naturalização da passividade perante o sofrimento.

É isso: somos cúmplices do crime de alienação moral. Assiste-se à morte humana numa indiferença sem limites. É como se esta grande cólera nos tivesse limpado do bem, esvaziado a esperança, esvaziando a alma, abrindo-nos para a eterna indiferença do mundo.

O Papa Francisco quis que o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2016 fosse dedicado ao tema: «Os emigrantes e refugiados interpelam-nos». Ora, interpelar é interromper, é dirigir a palavra a alguém para lhe perguntar alguma coisa. O Evangelho da misericórdia sacode as consciências, faz-nos interrogar, perguntar e impede que nos habituemos ao sofrimento do outro e indica caminhos de resposta que se radicam nas virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, concretizando-se nas obras de misericórdia espiritual e corporal – hoje, mais do que no passado.

E tudo isto porque interpelo, também, como na canção do Padre José Fernandes de Oliveira, o nosso conhecido Padre Zezinho, de quem tanto gosto:

Que foi que eu vim fazer; Em Terra que não é minha

Em Terra que não é sua; Em Terra que não é nossa

Em Terra de um povo irmão (bis)

Somos todos estrangeiros; Enquanto não vem a paz

Somos todos estrangeiros; Enquanto essa paz não vem

Vim plantar uma semente de esperança; E lembrar que somos todos peregrinos

E gritar que somos todos estrangeiros; neste mundo em transição

espalhar por todo o canto esta delícia, Que somos todos irmãos

Que somos todos irmãos, Que somos todos irmãos

Sebastião Martins (Leigo Católico)

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