Visita do Papa ao México-Sebastião Martins

MartnsO Papa Francisco decidiu visitar novamente o continente americano e escolheu como destino os Estados Unidos Mexicanos, continuando o legado deixado pelos Papas João Paulo II e Bento XVI.

Uma vez em solo mexicano, o Santo Padre encontrou-se com os bispos deste país na Catedral da Cidade do México. Perante os prelados, o Sumo Pontífice pediu a todos os membros da Igreja para que não tivessem medo da transparência, para que não cedessem ao facilitismo da corrupção, do materialismo e dos acordos feitos por debaixo da mesa. E, posteriormente, pediu a todos os clérigos para que não subestimassem o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para toda a sociedade mexicana.

O mote para o discurso mais político feito durante esta visita oficial foi, desta feita, dado na capital, no pátio do palácio presidencial, com os políticos, a sociedade civil e o corpo diplomático presentes.

De facto, o Papa Francisco indicou quais eram as duas grandes causas para o país, berço de culturas ancestrais: a importância da luta contra o tráfico de droga e o respeito pelas populações indígenas.

O Santo Padre começou a sua jornada com a celebração de uma missa no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. Durante a homília, recordou as vítimas da violência do tráfico e apresentou as aparições de Nossa Senhora como um sinal de «esperança» para os mexicanos. Conforme a crença católica, a Virgem de Guadalupe apareceu ao índio da tribo Nahua, Juan Diego Cuauhtlatoatzin, no monte Tepeyac (na Cidade do México), em 9 de Dezembro de 1531, vestindo as roupas das populações locais e falando a mesma língua. Na aparição, a Virgem pediu que fosse construída uma igreja naquele local, tendo deixado a sua imagem impressa, por milagre, no manto de Juan (mais conhecido como tilma, um tecido de pouca qualidade feito a partir de um cacto). Por fim, apelou a todos os católicos para serem «embaixadores» de Deus, dirigindo-se aos crentes e pedindo: «Veste o despido, visita o doente, socorre quem está preso, perdoa quem te magoou, consola o triste, tem paciência com os outros».

No primeiro domingo da Quarema, em 14 de Fevereiro, o Papa presidiu a uma celebração eucarística realizada ao ar livre no bairro de Ecatepec, na periferia da Cidade do México. Aquando da sua intervenção, antes da recitação da oração do Angelus, o Santo Padre denunciou os traficantes e apelou aos mexicanos a construção de «uma terra que não tenha de chorar homens e mulheres, jovens e crianças que acabam destruídos nas mãos dos traficantes da morte».

Na consagração da sua devoção à «Virgem Morenita», o Sumo Pontífice esteve a rezar em privado no camarín, lugar onde está guardada a imagem desta santa, que remonta às aparições do século XVI. O Papa Francisco entregou à Virgem um diadema de ouro que foi benzido no final da missa, com a inscrição mater mea, spes mea («minha mãe, minha esperança»), um ramalhete de flores amarelas e um rosário. Todas as celebrações foram acompanhadas pelos prelados do séquito papal.

O Santo Padre visitou também o Hospital Pediátrico Federico Gómez, na cidade do México, abençoou as crianças que estão em tratamento oncológico e agradeceu «a todas as pessoas que, não só com medicamentos, mas sobretudo com a “carinhoterapia”, ajudam para que este tempo seja vivido com maior alegria.» O Sumo Pontífice disse às crianças: «Ao atravessar aquela porta e ver os vossos olhos, os vossos sorrisos, os vossos rostos, surgiu-me o desejo de agradecer: obrigado pelo carinho com que me recebeis; obrigado pelo afecto com que sois cuidados e acompanhados; obrigado pelo esforço de muitos que estão a dar o seu melhor para que possais recuperar rapidamente».

O Papa Francisco visitou ainda o Estado de Chiapas (na costa sudoeste do México), tendo entregado a autorização oficial para a celebração das liturgias católicas nas línguas indígenas e rezado pelas comunidades «vítimas da opressão, racismo, marginalização, injustiça e exclusão». A celebração foi acompanhada de cânticos nas línguas nativas Tzotzil, Tzeltal e Chol.

Na celebração participaram várias comunidades indígenas do México e o Sumo Pontífice lamentou que muitas pessoas considerem ainda «inferiores» os valores, as culturas e as tradições destas populações, condenando os que, «fascinados pelo poder, o dinheiro e as leis do mercado», os despojaram das referidas terras.

O tema central foi a exclusão de que os povos têm sido alvo de forma sistemática e estrutural. O Papa Francisco citou o livro Popol Vuh, registo documental da Civilização Maia, produzido no século XVI, que relata a origem da sua cultura: «A aurora veio sobre todas as tribos reunidas. E logo a face da terra foi purificada pelo sol».

O Papa visitou a Catedral de San Cristóbal de Las Casas e rezou no túmulo do antigo bispo da diocese, D. Samuel Ruiz, conhecido por ser um defensor dos direitos dos indígenas e reconhecido pelos mesmos como jtatic («pai»). D. Samuel Ruiz nasceu em Irapuato, no Estado mexicano de Guanajuato, em 3 de Novembro de 1924. Foi ordenado sacerdote no dia 2 de Abril de 1949 e bispo de San Cristóbal no dia 25 de Janeiro de 1960. De todos os seus feitos, destaca-se a defesa destes povos quando eram explorados por alguns proprietários de terrenos agrícolas, que usavam grupos criminosos para aterrorizar a população. O bispo recebeu o prémio Simón Bolívar, da UNESCO, e foi candidato ao prémio Nobel da paz, em 1994, quando mediou o conflito entre o governo mexicano e o Exército Zapatista de Libertação Nacional, em Chiapas.

O Santo Padre encontrou-se ainda com milhares de famílias na cidade de Tuxtla Gutiérrez, onde pediu a garantia do «mínimo necessário» para a subsistência e alertou para o perigo da solidão. Na reminiscência do Sínodo dos Bispos sobre a família, realizado em 2015, o Papa Francisco condenou as «ideologias destruidoras da família», uma vez que a sociedade julga-as como um «modelo já ultrapassado […], a pretexto de modernidade favorece-se cada vez mais um sistema baseado no modelo do isolamento».

Esta peregrinação do Papa pelos lugares marcados pelo conflito bélico, por si só, já tem uma simbologia notável na difusão da fé cristã, mas as viagens do Sumo Pontífice têm sido essenciais, sobretudo, para que a doutrina social da Igreja chegue a todos os membros da instituição, naquele que parece ser o objetivo primordial deste pontificado.

Sebastião Martins (Leigo Católico) Mestre em Estratégias e Doutorando em Ciências Politica

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